Sou um homem de tendências ambulatórias; não viajo, porém, para ver monumentos imponentes, que, para falar verdade, me aborrecem um pouco, nem belas paisagens, de que logo me farto; viajo para ver gente. ...

Somerset Maugham

Podem aqui ser encontrados textos e sons diversos onde se comenta a globalização, encarada como historicamente gradual mas inevitável encontro entre culturas, com relevo para as artes musicais. Não existem culturas mais avançadas que outras, de excessos e fanatismos todas sofrem, e a Europa e os EUA têm de se preparar para isso...


Desde o séc. XVI que o folclore luso levado durante os descobrimentos mantém, estranhamente, uma actualidade que merece ser descoberta. Bom exemplo é o que se passa com o keroncong, estilo musical luso-oriental cada vez mais vivo na Indonésia. Mas como terá evoluído o Mandó que preenchia os serões nas casas senhoriais em Goa? Que música ouvirão os jovens do Bairro de Pescadores em Malaca…ouvi dizer que a Farapeira, com versos em Papiá Kristang está muito na moda (Farrapeira é uma das danças mais populares e antigas no Norte de Portugal). Li algures que Sunil Perera, líder da banda do Sri Lanka The Gypsies de ascendência Kaffir(cafres), tem esgotado salas com vibrantes temas Baila (hum…)! Haverá folclore luso-oriental em Timor para além das conhecidas canções de resistência? O que restará, nas Antilhas Holandesas, dos sons empapiamento guene"vindo da Guiné" que nasceu quando em 1634 o português Samuel Cohen aportou emCuração? E em Macau, a Tuna Macaense terá gravado novos temas em Papiá Macaista? No Brasil e Cabo-Verde a influência musical é por demais evidente, mas por outro lado tantos anos comerciámos na Tailândia e no Japão, será que também papearemos por aí…


(Por vezes também espreitam sons e palavras que aparecem não se sabe de onde...)


domingo, 7 de setembro de 2014


Novo livro de José Brandão reúne impressões de 26 viajantes sobre Portugal e os portugueses

“Este é o Reino de Portugal” mostra como estrangeiros viam os portugueses

Novo livro de José Brandão reúne impressões de 26 viajantes sobre Portugal e os portugueses
O investigador José Brandão afirma que os viajantes estrangeiros que visitaram Portugal entre os séculos XVII e XIX, referem-se aos portugueses como “altivos, vaidosos e impostores”.
“Esta imagem só começa a diluir-se no princípio do século XX, pois até aí, em resumo, os viajantes que nos visitaram, referiram-se aos portugueses como vaidosos, impostores, altivos e arrogantes, hipócritas, vingativos, ignorantes, velhacos, traiçoeiros, desonestos, pedinchões, inconstantes, supersticiosos, fanfarrões, preguiçosos, mas também sensuais e ciumentos”, disse.
José Brandão reuniu na obra “Este é o Reino de Portugal”, os relatos de 26 viajantes ilustres que visitaram Portugal do século XVII ao XIX, e escreveram as suas impressões, entre eles, William Beckford, Carl Israel Ruders, Hans Christian Andersen, o príncipe Felix Lichnowsky, Marianne Baille e Maria Ratazzi.
O escritor espanhol Miguel Unamuno é o único viajante referenciado no século XX, e que afirmou que os portugueses são um “povo suicida”.
Os estrangeiros “descobrem Portugal, essencialmente depois do terramoto de 1755, logo não encontrando o país nas melhores condições socioeconómicas” e “queixam-se de tudo, esquecendo o que certamente sofreram noutros países por onde andaram ou até nos seus próprios”, disse o autor.
José Brandão afirma na sua obra que “chegar a Portugal era uma façanha absolutamente corajosa”, mas no final do século XVIII foi fértil o interesse de viajantes” e já no século XIX com o desenvolvimento das políticas de Fontes Pereira de Melo, o comboio, as estradas e as pontes facilitaram a viagem, mas “alguns deles nem saíram de Lisboa e dos seus arredores”.
Em 1866, o escritor Hans Christian Andersen, por exemplo, além de Lisboa, deslocou-se a Sintra, Setúbal e Arrábida e refere-se a Portugal como o “paraíso terreal”.
A obra de José Brandão segue uma linha cronológica sendo cada período antecedido de uma contextualização político socioeconómica.
“Quando saiam de Espanha e chegavam a Portugal, todos os viajantes ao longo dos tempos sentiam que viam um mundo novo”, disse.
Entre esses viajantes que começam a fazer o "grand tour, incluindo Portugal", no século XIX, “o grupo mais numeroso é o dos autores procedentes das ilhas britânicas”.
Em declarações à Lusa, José Brandão afirmou que dos 26 viajantes estudados os que mais o impressionaram foi Maria Ratazzi, que escreveu “Portugal de Relance”, por “ser arguta e não se ter ficado apenas por Lisboa”, e J.B.F. Carrère “pela frontalidade, e por não ter papas na língua”.
Carrère visitou Portugal em 1796 e aconselhou “o conhecedor de belas-artes, o físico, o simples curioso [e] o filósofo” a não visitarem Lisboa pois não iam encontram nada “com que satisfazer a sua curiosidade ou descobrir objetos dignos do seu interesse”.
Ratazzi, que Bordalo Pinheiro caricaturou no “Álbum de Glórias”, esteve em Portugal em 1880 e refere-se aos portugueses como “indolentes”, “belos e bem feitos, mas prejudicam muito estas qualidades pelo excesso de vaidade” e em todo o país, “excetuando no Porto e nas [regiões] montanhosas, o ‘farniente’ é a suprema lei”.
José Brandão, 65 anos, publicou vários artigos entre 1983 e 1995 na imprensa, e é autor dos livros “Sidónio – Contribuição para a história do presidencialismo”, “Carbonário – O Exército secreto”, e “Portugal trágico – o regicídio”, entre outros.
Lusa

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