Perigosas, desconfortáveis e fumarentas: as motocicletas nos periódicos impressos portugueses
INTRODUÇÃO
Sempre me pareceu estranho que apesar do nosso clima ameno, com muito sol, temperaturas agradáveis e sem demasiada chuva, se vejam muito menos veículos de duas rodas que em outros países com variações meteorológicas bem mais agrestes!
Consultando estatísticas europeias de 2010 (ACEM 2011 Report) quanto a motocicletas a rodarem nas estradas e ao comparar Portugal (499.378 motociclos de qualquer cilindrada) com países de população semelhante mas clima bem diferente, descobrimos que temos cerca de metade das registadas na República Checa (924.921) e um terço na Bélgica (668.915)! A Finlândia tem metade da nossa população e praticamente a mesma quantidade de motociclos! Esta comparação poderia continuar, até porque dentro da Europa a quinze nós estamos muito abaixo da média, mas observemos ainda o caso da Grécia, país com população, clima e até situação económica semelhante: por aquelas paragens rodam três vezes mais motocicletas (1.499.133)!
Acresce ser Portugal um dos quinze países da Europa alargada onde se fabricam motociclos, embora com uma produção muito reduzida (em 2007 trezentas unidades), tradição que se mantém desde que as Alma-Nacional surgiram em 1947 e que teve o seu auge nos anos sessenta e setenta. Curiosamente, desde 2007 que o mercado de motorizadas em segunda mão de fabrico português (Famel, Casal, EFS, etc) tem tido apreciável incremento, talvez pelo seu baixo preço poder alimentar a nostalgia própria aos tempos de crise…
Para tudo se tornar ainda mais incompreensível, as estatísticas não têm apontado no mesmo sentido quanto ao parque automóvel, onde nos aproximamos da média europeia! Como explicar esta situação, quando sabemos que os motociclos são incomparavelmente mais baratos que os automóveis, gastam muito menos combustível, têm parqueamento gratuito, não sofrem com filas de transito, alguns são muito rápidos e confortáveis, apresentando portanto enormes vantagens desde que conduzidos com segurança?
Não se encontrando portanto justificação em questões de ordem económica penso que seria interessante um estudo sociológico deste fenómeno, que poderia ser alargado aos velocípedes, até porque a recente crise económica do capitalismo - que em Portugal se agrava com decisões políticas desastrosas - pode obrigar a uma alteração da situação. De facto, estatísticas de 2012 indicam ter a venda de automóveis diminuído em toda a Europa, com os portugueses a comprarem cerca de metade de 2011, o mesmo acontecendo quanto aos motociclos, embora nestes a queda tenha sido menor, cerca de 10%. Por outro lado, os portugueses utilizam menos os transportes públicos, consequência inevitável dos recentes aumentos e da menor oferta de carreiras, talvez rumo à privatização, o que nada indica de positivo.
Embora não caiba no âmbito desta pesquisa solucionar o enigma, assumo ter sido essa estranha constatação que me levou a analisar a imprensa periódica portuguesa que directa ou indirectamente se debruçou sobre este meio de transporte, opção onde sem dúvida pesou a minha formação como bibliotecário. Talvez um pouco do véu se levantasse, quem sabe…
Acresce que penso não existir qualquer levantamento bibliográfico semelhante, pelo menos elaborado numa perspectiva documentalista. Repare-se, a titulo de exemplo, que na interessante colecção Bibliografias da Biblioteca Nacional existem temas muito variados e até quase inesperados, como Livros de Cozinha ou Tauromaquia, mas o mais aproximado que encontrei foi o catálogo da exposição bibliográfica organizada pela BN em 2004, ano do Campeonato da Europa de Futebol realizado em Portugal, onde a recolha bibliográfica abrangeu todas as modalidades desportivas, incluindo periódicos sobre as duas rodas (foram referenciados 8 títulos).
A nossa pesquisa recaiu apenas sobre material escrito impresso, deixando portanto de fora documentação eletrónica, sonora e outras, opção que se baseia essencialmente em critério de ordem prática.
Não posso, todavia, deixar de notar que foi também reflexo de uma certa reacção à proliferação e quase ditadura da informação electrónica, qual polvo que abraça, aperta e condiciona o acesso ao suporte tradicional, dando a ilusão de que apenas aí se encontra conhecimento.
Avancemos então para a definição do objetivo a que me propus: levantamento o mais completo possível dos periódicos portugueses impressos, de qualquer periodicidade ou género, cujo conteúdo trate de motocicletas, incluindo neste conceito motociclos (mais de 50cm3), ciclomotores (menos de 50cm3, também designados como "mopeds" ou motorizadas) e quadriciclos, seguindo a classificação de veículos inscrita no artigo 107.º do Código da Estrada. Por uma questão de facilidade terminologica, o termo motociclismo, quando utilizado, abrangerá aqueles três tipos de motocicletas.
Para a elaboração deste trabalho foram consultados diversos fundos documentais, devendo realçar os da Biblioteca Nacional, Hemeroteca Municipal e outras bibliotecas públicas de Lisboa, Centro de Documentação da Direcção Nacional da PSP, Museu dos Transportes e Museu do Automóvel Antigo de Oeiras, desde já agradecendo o apoio dispensado pelos respetivos responsáveis.
Consultei também diversos catálogos bibliográficos sobre publicações ligadas aos transportes e a actividades desportivas, acompanhando ou não exposições bibliográficas, mas com resultado pouco significativo. Caso exista documento secundário ou primário que me tenha escapado, a todo o tempo poderei e deverei efetuar a devida atualização.
Atendendo a que as primeiras notícias sobre o assunto remontam ao início da chamada Fase Industrial da Imprensa e que apenas na década de cinquenta do séc. XX surgiu o primeiro periódico especializado nessa matéria, isto é, onde o único (ou quase) tema eram as motocicletas, neste documento secundário surgem também periódicos especializados onde se agregam temas diversos como motorismo (tratando ao mesmo tempo de automóveis e motocicletas), velocipedismo, desporto em geral ou mesmo publicações generalistas. No mesmo sentido, e continuando orientados pela classificação quanto à matéria apresentada por José Tengarrinha na sua História da Imprensa Periódica Portuguesa, a motocicleta será considerada numa perspetiva multidisciplinar, isto é não apenas desportiva ou de lazer, mas também quanto à segurança, técnica, compra e venda, novos modelos, artística, etc. Também encontraremos referências que aparentemente nenhuma relação terão com o tema, cabendo ao resumo tentar justificar essa inclusão.
A apresentação das publicações seguiu a ordem cronológica do seu surgimento, podendo definir-se como bibliografia retrospetiva analítica ou anotada, critica e selectiva (seguindo Louise Malclés), uma vez que as referências bibliográficas são complementadas com resumos que abrangem não apenas a publicação em si mas também outros elementos que possam ajudar a entender a forma como a motocicleta foi sendo olhada através dos tempos em Portugal e nas ex-colónias, abarcando as diversas perspetivas acima referidas.
Foram também elaborados índices onomástico e geográfico, de forma a facilitar a pesquisa nas 90 referências bibliográficas classificadas e respetivo abstract.
Como já referimos, a listagem bibliográfica segue ordem cronológica, onde poderemos encontrar algumas grandes fases históricas na divulgação do motociclismo em Portugal, com o consequente reflexo na quantidade de títulos e diversidade do seu conteúdo. Como escreveu António Mega Ferreira, "As motos são também um estilo ou, até, implicam um certo estilo de vida. Por isso, a sua história confunde-se com a história do século, afinal, a nossa história".
1.
Até 1899
Desenvolvendo a reflexão de que as motocicletas - bicicleta-automóvel, como foram originariamente designadas entre nós - surgiram como uma evolução da bicicleta a caminho do automóvel (no mesmo sentido repare-se que François Burkhardt e Francesca Picchi escrevem que a criação da Vespa seguiu o objetivo de encontrar um meio de transporte barato e que se aproximasse do conforto de um carro, um "carro simples" - ver texto incluído compilação "O Culto da Vespa"), achámos conveniente incluir uma fase zero, onde se mencionassem títulos que ajudassem a perceber os primórdios da motocicleta em Portugal. Que nos seja perdoado recuarmos até à "descripção" da Passarola, obra que nem de um periódico se trata, mas que incluímos para sublinhar que durante muitos anos a motocicleta foi considerado engenho tão estranho como a máquina de voar onde Scarlatti gostaria "de ir para tocar no céu", segundo a pena de Saramago…quem sabe se não será por aqui que o véu poderá começar a levantar...
Em 1893 aparece então o primeiro jornal dedicado ao velocipedismo (O Velocipedista, Porto), atividade física que rivalizava com a caça e tauromaquia. O futebol dava também os primeiros passos.
Será interessante notar que a própria noção de desporto ainda não se encontrava devidamente definida, existindo periódicos que agregavam temas desportivos com outros ligados às artes ou à política, linha editorial que seria seguida por outras publicações e que apenas iria desaparecer na década de quarenta. Pelo seu pioneirismo gostaríamos de referir a Revista Fayalense, editada pelo Gymnasio Club Fayalense e publicada nos Açores entre 1893 e 1895, onde se referia que "pela palavra sport, de que não existe equivalente na nossa língua, e cuja significação em inglês é muito vasta, designa-se uma numerosa série de divertimentos e exercícios, que ocupa hoje em dia um grande número de indivíduos de ambos os sexos".
Como curiosidade, em 1836 publicou-se em Coimbra o jornal O Piloto que, evidentemente, nada tinha a ver com qualquer tipo de condução…
Não existindo ainda jornais especializados em automobilismo, foi portanto em jornais generalistas que surgiram as primeiras notícias ligadas ao motorismo, no caso do automobilismo com o Diario Ilustrado (Lisboa, 1872) a noticiar a chegada do primeiro automóvel a Portugal, importado em 1895 pelo Conde de Avilez.
2.
1899-1920
As primeiras notícias sobre motociclismo surgem também associadas a experiências de elite mais ou menos ociosa, como o relato do espanto com que o povo encarava o tricycle do robusto infante D. Afonso, irmão de D. Carlos, que teria sido importado por volta de 1894 (ver O Tiro Civil de 1 de Março de 1898).
A primeira corrida de motocicletas em pista ter-se-á realizado em 1900 no Velódromo da Palhavã, mas a atenção não cairia tanto na competição mas naquelas máquinas fumarentas, perigosas e desconfortáveis, próprias de aventureiros ou loucos. Em 31 de Julho de 1904 escrevia-se nas páginas do semanário lisboeta O Aventureiro, dirigido pelo dramaturgo Joaquim de Landerset, e cujo programa agregava desporto e teatro, assim como a literatura, que em Portugal se tem medo do Sport por isso «não se pega num florete porque pode desembolar-se, não se atira porque nos podemos ferir, não se monta uma motocycletta porque pode explodir, etc., etc.»
Naquela época as provas de motos destinavam-se essencialmente a bater recordes, de que o Quilómetro de Valada é bem exemplo, conforme pitorescamente se descreve no jornal Os Sports (Lisboa, 1905) em texto de José Pontes, um dos pioneiros da análise do jornalismo desportivo português: o titulo de recordman de Portugal foi atribuído ao único concorrente presente na "reunião", o Sr. Manuel Ferreira, fazendo o quilómetro num Peugeot de 5 cavalos em 49 segundos e 9 décimos, 72 quilómetros e 289 metros á hora!
Só portanto em princípios do séc. XX surgem as primeiras notícias sobre veículos que realmente cabem neste repertório, designadamente na imprensa generalista ou especializada em velocipedismo ou automobilismo, continuando as motocicletas a merecerem tratamento subalterno nessas publicações, estatuto jornalístico que apenas se alteraria com o final da Primeira Grande Guerra, pesem embora a evolução técnica e popularidade que gradualmente vão ganhando. De qualquer forma será de referir a Semana Desportiva organizada pelo jornal O Mundo (Lisboa, 1900), que começou no domingo, 9 de Março de 1913, e terminou no domingo seguinte, dia 16, englobando competições de motociclismo, ciclismo, futebol, atletismo, hipismo, halterofilismo e boxe, bem como diversas provas da responsabilidade do ACP e do Jornal da Noite (Lisboa, 1903), entre outros.
Estamos num período em que o automobilismo começa a ter grande popularidade, surgindo entre 1901 e 1920 novos cinco títulos especializados, com o pioneirismo a caber ao Portugal Chauffeur (Coimbra, 1903) para além das secções em jornais generalistas e desportivos, tendo na velocipedia surgido três novas publicações periódicas. Mas a grande novidade era a aviação, também com três novos títulos (com o primeiro a surgir em Lisboa em 1911, com o título Aero-Club de Portugal).
3.
1921-1954
Começa então uma fase em que surgem periódicos essencialmente ligados ao automobilismo mas que começam a dar maior relevância às motocicletas, casos de O Volante (Lisboa, 1926) e O Motor (Lisboa, 1936), com secções autónomas paralelas a outras sobre aviação ou maquinaria agrícola. Surgiram mesmo publicações em que o tema já aparecia no subtítulo, veja-se O Auto: Automobilismo, Aeronáutica, Motociclismo, Ciclismo (Lisboa, 1923) e a revista Auto Motor: Automobilismo, Motociclismo, Aviação (Lisboa, 1936), tendo mesmo surgido em 1929 em Lisboa a revista Motociclismo: Revista Portuguesa Ilustrada, mas que também se debruçava sobre aviação, automobilismo e turismo, continuando portanto sem existir qualquer periódico especializado em motociclismo.
É verdade que em parte deste período existiu, na Europa e nos EUA, um claro desenvolvimento das motocicletas - a chamada idade de ouro - com a formação de diversos clubes e a proliferação de passeios motards, criando raízes para o posterior surgimento de uma subcultura autónoma, cujos tardios reflexos no nosso país abordaremos com alguma profundidade. Mesmo em Portugal melhoraram as estradas, o Clube Motociclista de Portugal organiza em 1929 o 1.º Salão Motociclista em Lisboa, as motocicletas começam enfim a ganhar mais popularidade mas não o suficiente para merecerem tratamento noticioso especializado.
Repare-se que em França desde 1905 que o Autocycle-club de France publicava La Motocyclette, nas Ilhas Britanicas The Motor Cycle e Motor Cycling rivalizavam desde 1903 e mesmo em Espanha a criação do Real Moto Club Espanol em 1915 possibilitou que em 1918 surgisse a sua revista mensal Motociclismo.
O referido Auto Motor, no seu primeiro número, em Fevereiro de 1938, escrevia na secção motociclista que "falar, em Portugal de motociclismo como desporto torna-se quase impossível porque ele não existe", encontrando a razão na falta de entusiasmo e incapacidade dos dirigentes.
4.
1955-1974
Como já referimos, a autonomização só surgiu na década de cinquenta com o aparecimento das scooters, tendo até então o motociclismo vivido "entalado", no que à imprensa respeita, na fase inicial entre noticias de bicicletas e posteriormente no meio principalmente de automóveis, mas também de aviões e outras máquinas diversas. De facto, com o final da Segunda Grande Guerra, muitas das fábricas de aviões tiveram de reformular os seus objectivos, chegando a utilizar peças de aviões para construir motocicletas, tendo Corradino d´Escanio revolucionado o mercado ao criar um “ veículo fácil de guiar por homens e mulheres, que pudesse levar duas pessoas e que impedisse o sujar das roupas “, respondendo a um desafio proposto por Enrico Piaggio, que exclamou ao ver o protótipo: "parece uma Vespa!". Tinha surgido um objeto de desejo, conforme escreveu Umberto Eco em O Culto da Vespa, resumindo num interessante texto a forma como as famílias italianas encararam a miséria que a guerra trouxera.
Justifica-se assim que a partir do Boletim Vespa (1955, Lisboa), primeira publicação periódica portuguesa especializada em motociclismo, apenas se incluam nesta bibliografia títulos especializados no tema, com as seguintes excepções, no resumo devidamente contextualizados:
- divulgação das motocicletas nas forças militares e militarizadas
- importância do título incluído
- publicações editadas nas ex-colónias
- jornais e revistas sobre clássicos
É curioso e significativo notar que dos quatro títulos especializados que surgiram entre 1955 e 1974, três apareceram nos anos de 1955 e 1956, todos eles acompanhando a revolução que as scooters trouxeram, sendo a vertente desportiva menos abordada, antes analisando os novos modelos, relatando passeios ou anunciando aventuras.
De facto, embora nos anos 60 se tenham multiplicado empresas que montavam ou mesmo fabricavam motorizadas em Portugal, com o interior do país a ser invadido por máquinas de 49cc que gradualmente foram substituindo os veículos de tração animal, entre 1958 e 1975 apenas surge um título especializado em motociclismo. Tratou-se da Motonotícia Casal (Aveiro, 1970), publicação da responsabilidade da Metalurgia Casal, o maior fabricante de motores e motorizadas em Portugal, cabendo a jornais que agregavam temas de automobilismo e motociclismo como os já referidos O Volante (Lisboa, 1926) e o Motor (Lisboa, 1963) e entre 1972 e 1973 a revista Autódromo (Lisboa, 1972), a tarefa de noticiar o que ia acontecendo no mundo das motocicletas. Esta indústria praticamente desapareceu nos anos 80, com a entrada de Portugal na CEE sem ter existido a devida proteção à industria nacional, disparando a importação de máquinas japonesas, principalmente de baixa cilindrada.
5.
1975-1999
Com o pós 25 de Abril surge um período de grande desenvolvimento da imprensa ligada não apenas ao automobilismo mas também ao motociclismo - assim como na generalidade da imprensa especializada - surgindo entre 1975 e 1984 dez novas publicações totalmente ligadas às motocicletas, sem dúvida reflexo da gradual abertura ao exterior que já vinha da chamada "primavera marcelista", sendo bem significativa a publicação Roda da Honda, surgida em Lisboa em 1975. Era o começo da invasão japonesa e depois chinesa, que traria como consequência a multiplicação de publicações que se debruçavam sobre as motos em diversas perspectivas, fosse motocross, 4 rodas ou aventura, tendência que se manteria até aos dias de hoje. Entre 1975 e 1999 surgiram 20 novos títulos, com realce para publicações como o Jornal Motocross (Porto, 1983), Motojornal (Lisboa, 1983) e Motociclismo (Lisboa, 1991).
6.
2000-2011
Desde a segunda metade dos anos setenta que a imprensa desportiva especializada continuou a desenvolver-se, com a zona da Grande Lisboa a dominar na área do motociclismo. Na primeira década do séc. XXI surgiram vinte e três novos títulos, com a diversidade a abranger temas como powerbikes/ tunning, compra e venda, cultura motociclista (a interessante REV: Motorcycle Culture publicada em Lisboa desde 2010 a merecer atenção especial) e motorizadas clássicas com destaque para antigas marcas portuguesas, com três novos títulos especializados nessas relíquias.
Grande parte destas publicações pertencem aos grupo Motorpress e Edimoto, o que não é mais do que o reflexo do que se passa na generalidade da imprensa escrita e dos media em geral desde os anos noventa, com a concentração da propriedade e gestão dos meios de comunicação a serem dominados pelas quatro ou cinco grandes empresas do sector. Esta realidade, a que se junta a forma como a "imprensa escrita em duas rodas" tem lidado com os desafios que os novos meios de comunicação trouxeram ao panorama jornalístico (nomeadamente através da utilização paralela de blogs para uma melhor interacção com o leitor), mereceriam análise sectorial aprofundada que não coube no âmbito deste levantamento, onde apenas se sinaliza a situação nas respetivas referências.
Por último, não poderemos deixar de sublinhar que nas diversas fontes de informação consultadas e que constam da bibliografia anexa a este trabalho, existem publicações que merecem especial realce: As Motos Antigas em Portugal até 1955, edição de 1995, que veio a ser complementada em 2000 com As Motos do Século. A primeira publicação foi coordenada por João Lopes da Silva e inclui textos de João Seixas e Pedro Pinto, sendo este autor responsável pela Motos do Século, publicação que acompanhou a exposição apresentada pelo Parque Expo 98 no Parque das Nações no ano de 2000. Estas publicações apresentam-se, indiscutivelmente, como as duas grandes obras de referência portuguesas sobre motocicletas.
As citadas publicações serviram de ponto de partida para a pesquisa efetuada até ao ano de 2000, com o utilíssimo complemento da Tese de Mestrado defendida por Francisco Pinheiro na Universidade de Évora em 2009 denominada História da Imprensa Desportiva Portuguesa 1875-2000, que possibilitou o devido enquadramento na análise da imprensa desportiva e da própria forma como o fenómeno desportivo foi sendo compreendido através dos tempos, uma vez que a vertente desportiva foi sempre, naturalmente, tema forte no conteúdo dos periódicos analisados.
REFERÊNCIAS
Descripção do novo invento aerostatico, ou maquina volante, do metodo de produzir o gaz, ou vapor com que esta se enche, e d'algumas particularidades relativas ás experiencias, que com ela se tem feito : com a noticia d'um similhante projéto, formado em lisboa no principio deste seculo: e peças a êle relativas/ Bartolomeu de Gusmão. - Lisboa. - 17??
Por volta de 1709 o "padre voador" português encanta as Cortes de Lisboa com o voo da Passarola, antecedendo em século e meio o automóvel criado em 1769 pelo francês Nicolas Cugnot e em dois séculos e meio a primeira motocicleta, também a vapor, fabricada pelo americano Sylvester Roper em 1869.
Desde então, quem, entre nós, realizou o sonho de Ícaro continuou a ser encarado com admiração (vejam-se os títulos dos jornais da época sobre o feiro de Sacadura Cabral e Gago Coutinho em 1921 ao efectuar a primeira travessia aérea do Atlântico Sul), enquanto o motociclista só muito mais tarde largou o estatuto condutor excêntrico.
Significativo o facto do Boletim do Aero-Club de Portugal (Lisboa, 1911), primeiro periódico ligado à aviação, ter surgido mais de 40 anos antes do Boletim Vespa (Lisboa, 1955), pioneiro dos títulos especializados em motocicletas.
Diário Illustrado. - Lisboa. - 1872
Um dos primeiros jornais generalistas a criar uma secção de desporto, principalmente futebol, ainda antes do revolucionário Diário de Notícias, pioneiro da chamada imprensa de massa.
Em notícia de 16 de Outubro de 1895 é um dos diversos jornais que refere a viagem do Conde de Avilez de Lisboa para Santiago do Cacém num Panhard et Laevassor, primeiro automóvel a rodar em Portugal. Nesta viagem, plena de peripécias, acontece o primeiro acidente rodoviário da nossa história, ao atropelar um burro em Palmela, conforme descrito no semanário "Districto de Setubal" de 27 de Outubro de 1895.
Em 2 de Setembro de 1877, publicou na sua capa uma das primeiras imagens sobre desporto em Portugal: uma gravura (assinada por Alberto) do Hipódromo de Belém, durante uma corrida de cavalos.
Extinguiu-se em 8 de Janeiro de 1911
……………………………….
Portugal Chauffeur/ dir. Amilcar de Sousa. - Coimbra. - 1903
Primeiro periódico especializado em automobilismo.
A nível internacional, as publicações dedicadas ao mundo automóvel e aos desportos motorizados começaram a ter uma forte implantação durante este período. La Locomotion Automobile (1894-1909), La Locomotion (1901-1903) e La Vie Automobile (1903-1914) foram as vozes mais activas na promoção dos desportos com motor em França. Seguindo essa tendência, foi com naturalidade que surgiu em Portugal o primeiro periódico deste género, o Portugal Chauffeur. Esta revista mensal dedicou-se à organização de provas automobilísticas (seguindo o exemplo das congéneres francesas), como foi o Circuito das Beiras, mantendo essa tendência até ao seu desaparecimento, em inícios de 1905.
………………………………….
Jornal Vespa : boletim de informação vespista / Vespa Clube de Lisboa. - Lisboa. - 1955
O Jornal Vespa foi o primeiro periódico totalmente dedicado às duas rodas com motor, funcionando como boletim oficial do Vespa Clube de Lisboa, sendo o Boletim de Notícias do Club Velocipedista Portuense (1980) o primeiro boletim desportivo institucional, embora o que mais tempo durou tenha sido o Boletim Official da União Velocipédica Portugueza (1905-1930). Era Impresso na Oficina Gráfica, Limitada e o seu primeiro director foi F. E. Oliveira Marques, presidente da Direcção do Vespa Clube de Lisboa. A sua publicação encontra-se suspensa desde 2005.
Moto revista: motos, scooters, velomotores / dir. e ed. Carlos Alberto Faria de Oliveira. - Lisboa. - 1955
Segundo periódico totalmente dirigido ao motociclista (o primeiro terá sido o Jornal Vespa, também em 1955), em plena fase de entrada das scooters em Portugal. Pretende colocar "o motociclista na posição que lhe é devida por justiça, como executante de um desporto em que as qualidades físicas e intelectuais são base indispensável a quem o pretenda praticar". Tal como o Jornal Vespa, organiza passeios, inclui artigos sobre características técnicas e segurança. Refere a recente criação do Lambretta Clube (os Estatutos apenas foram publicados em 1956) e inclui um artigo sobre o Vespa Clube Tem também anúncios aos motores Alma, fábrica criada em 1947 pelas mãos do Engenheiro Manuel Barros de Almeida em Vila Nova de Gaia, tornando então dispensável recorrer a motores estrangeiros para equipar tanto motorizadas como bicicletas. Na capa do primeiro número apresenta António Pinto, campeão nacional de motociclismo.
Foi extinta com o segundo número, publicado em Maio-Junho 1955.
Listagem de periódicos especializados em motocicletas
Jornal Vespa : boletim de informação vespista (Lisboa, 1955)
Moto Revista (Lisboa, 1955)
Boletim a Volta ao Mundo numa "Scooter" : notícias da volta por dois portugueses (Lisboa, 1956)
Motojornal (Montijo, 1956)
Motonotícia Casal (Aveiro, 1970)
Roda da Honda/ Iba (Lisboa, 1975)
A Moto: Revista da Motorizada (Ermesinde, 1977)
Corridas de Motos : revista do desporto motorizado (Lisboa, 1977)
Moto (Lisboa, 198-)
Jornal a Moto (Porto, 1979)
Jornal Motocross (Porto, 1983)
Motojornal : revista mensal dos motociclistas (Lisboa, 1983)
Motosport: jornal mensal do motociclismo (Lisboa, 1986)
Duas Rodas : jornal de para especialistas (Lisboa, 1986)
Aventura 4x4 Moto : revista de todo terreno aventura e evasão (Lisboa, 1989)
Motociclismo (Lisboa, 1991)
Motociclismo: catálogo anual (Lisboa, 1992)
Anuário FNM (Lisboa, 1992)
Motocross Magazine TT : enduro motocross raid todo-terreno (Sacavem 1994)
Moto Sprint (Dafundo,1995)
Boletim Informativo do Motoclube de Arganil (Arganil, 1997)
Moto Compra & Venda (Braga, 200-)
Moto Report (Braga . - 200?)
Especial Costum: revista motociclismo (Cruz Quebrada, 2001)
Guia Usados Motojornal (Lisboa, 2001)
Jetquad Magazine (Carcavelos, 2002)
Jornal Motard (Fernão Ferro, 2002)
Moto Guia : a revista do motard (Delães, 2003)
Stand em Revista Moto (Tadim, 2003)
Powerbikes : tunning & streetfighters (Cruz Quebrada, 2004)
Moto 4 : jet ski (Lisboa, 2006)
Moto Verde (Lisboa, 2006)
Scooting Magazine (Lisboa, 2007)
Damoto (Alfragide, 2007)
Moto Classica : a primeira revista portuguesa da motocicleta antiga (Alfragide, 2008)
SóClàssicas (Alfragide, 2011)
Garage Ink: magazine da cultura costum (?, 2009)
Motociclismo : especial grandes prémios (Cruz Quebrada, 2009)
Motociclismo : técnicas de condução de motocicletas (Cruz Quebrada, 2009)
Motociclismo Viagens (Cruz Quebrada, 2009)
MCV: motos clássicas vintage (Lisboa, 2010)
Anuário de Velocidade MCV (Estoril, 2010)
REV: motorcycle culture (Lisboa, 2010)
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