António de Andrade representa, literalmente, o ponto mais alto dos descobrimentos portugueses: ele foi o primeiro europeu a chegar ao Tibete, o Tecto do Mundo, há quase 400 anos. Aquele missionário jesuíta foi, também, o último dos grandes viajantes portugueses dos séculos XVI e XVII.
Luís de Albuquerque, historiador
Um grupo de amigos residente em Macau decide visitar o Tibete, atravessando de camioneta os Himalaias até Lhasa, com partida de Katmandu no Nepal. O que parecia uma mera jornada turística escondia percalços e mesmo perigos imprevistos! Quem nos acompanhou na viagem e outros possíveis leitores destas páginas merecem uma explicação, que surge agora em forma de conto.
Tudo começou já lá vão mais de 400 anos, fruto do sonho de um musicólogo corajoso, fascinado com sons, melodias e ritmos de outras culturas!
Domingos de Macau, moço criado do Padre Jesuíta António de Andrade e de outros aventureiros da terra e do mar, compõe melodias que acompanham a maravilhosa e perigosa caminhada para o Tibete, com partida de Goa e passagem pelo Hindustão, nos alvores do século XVII. Perdidos nas andanças das descobertas, essas composições são acidentalmente recuperados por Luis Gouveia, investigador que preparava um texto sobre “Estética Orfeica em Camilo Pessanha” na Biblioteca do Leal Senado em Macau.
Consciente da preciosidade do documento, o investigador sabe que o seu amigo tibetano, monge num mosteiro no Tibete, poderia assim cumprir o sonho de criar uma orquestra juvenil, seguindo o modelo de El Sistema venezuelano! Encontrou quem em segredo empreendesse a tarefa de lhe fazer chegar o manuscrito, longe da cobiça e do lucro, mas nem tudo correu como esperava...
Os meus companheiros que me perdoem, mas só agora posso contar o que realmente se passou há vinte anos, nessa nossa expedição ao Tecto do Mundo. Entenderão, finalmente, muito do que parecia sem sentido... se é que algum entendimento existe nesta estranha narração, veja-se o seu inesperado Epílogo!
É essa a história que agora vão conhecer.
No final destas páginas incluímos cópia do referido libreto de Domingos de Macau e na contracapa repousa um CD que interpreta, actualiza e encena musicalmente o documento, produzido pelo pianista e produtor Enzo D ́Aversa (que conheci através do Beto Kalulu), a que adaptámos e juntámos alguns temas que ouvíamos na camioneta, durante a travessia dos Himalaias.
Para além do bom gosto e aturada pesquisa musical do Enzo, outros músicos colaboraram e tornaram o projecto possível, totalmente gravado no estúdio Goodie Goodie do guitarrista Zé Pino (meu amigo de Luanda já lá vão mais de 50 anos e que, evidentemente, também aqui faz ouvir o seu inconfundível som) - ver Ficha Técnica do disco.
Foram várias sessões de uma rotina em que tudo parecia simples: passava por casa do Enzo na Parede, tomávamos o pequeno almoço no café Bem Estar e seguíamos para o estúdio na Godigana, onde o Zé Pino nos esperava com a sua cativante tribo, a Lili desejosa de ser acariciada na barriga e a Laurinha pronta a escapulir-se pelo portão entre latidos do Bolinhas, da Coco Chanel e da Camila, enquanto o Kiko, cansado pelos quinze anos de vida, com esforço acompanhava as correrias. Era evidente a ternura com que o Zé brincava com todos, mas Kiko recebia especial atenção e carinho. Seguiam-se horas onde da direcção do maestro Enzo surgiram imagens sonoras que se destinam a enfeitar esta viagem, com a preciosa cumplicidade do guitarrista e a minha admiração pela competência de ambos.
Acabado o trabalho e quando preparávamos a publicação do livro com o disco no seu interior (como se de uma imensa capa de LP se tratasse), recebi uma carta de certa editora discográfica japonesa, informando que tiveram conhecimento desta nossa edição e que avisavam ter todos os direitos sobre a obra. Alguns dias depois chegou-me email de endereço desconhecido, com a imagem dum documento cristão de 1592, do tempo da terrível perseguição no Japão, com a inscrição Kirishitan shi (morte aos cristãos). Lembrei-me então que com frequência reparámos estacionar um carro alugado com dois passageiros japoneses perto do estúdio Goodie Goodie, que ocupa parte da casa do Zé Pino e da Maria João. Já nem quero encontrar ligação com a inesperada doença articular do Kiko, que acabou por partir durante as gravações após pungente acidente, que tanto abateu psicologicamente o Zé Pino!
Quem tiver paciência para ler estas páginas, descobrirá que não foi grande a minha surpresa ao receber estes avisos.
Nada nos vai impedir de divulgar o nosso trabalho!
Gostava de saber quem são os japoneses que reclamam os "direitos". E já agora se puder ajudar através da embaixada em Lisboa, diz pq tenho frequentado a representação nos últimos 5 anos, em algumas ocasiões.
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