Sou um homem de tendências ambulatórias; não viajo, porém, para ver monumentos imponentes, que, para falar verdade, me aborrecem um pouco, nem belas paisagens, de que logo me farto; viajo para ver gente. ...

Somerset Maugham

Podem aqui ser encontrados textos e sons diversos onde se comenta a globalização, encarada como historicamente gradual mas inevitável encontro entre culturas, com relevo para as artes musicais. Não existem culturas mais avançadas que outras, de excessos e fanatismos todas sofrem, e a Europa e os EUA têm de se preparar para isso...


Desde o séc. XVI que o folclore luso levado durante os descobrimentos mantém, estranhamente, uma actualidade que merece ser descoberta. Bom exemplo é o que se passa com o keroncong, estilo musical luso-oriental cada vez mais vivo na Indonésia. Mas como terá evoluído o Mandó que preenchia os serões nas casas senhoriais em Goa? Que música ouvirão os jovens do Bairro de Pescadores em Malaca…ouvi dizer que a Farapeira, com versos em Papiá Kristang está muito na moda (Farrapeira é uma das danças mais populares e antigas no Norte de Portugal). Li algures que Sunil Perera, líder da banda do Sri Lanka The Gypsies de ascendência Kaffir(cafres), tem esgotado salas com vibrantes temas Baila (hum…)! Haverá folclore luso-oriental em Timor para além das conhecidas canções de resistência? O que restará, nas Antilhas Holandesas, dos sons empapiamento guene"vindo da Guiné" que nasceu quando em 1634 o português Samuel Cohen aportou emCuração? E em Macau, a Tuna Macaense terá gravado novos temas em Papiá Macaista? No Brasil e Cabo-Verde a influência musical é por demais evidente, mas por outro lado tantos anos comerciámos na Tailândia e no Japão, será que também papearemos por aí…


(Por vezes também espreitam sons e palavras que aparecem não se sabe de onde...)


Aventuras em Vespa: Giorgio Bettinelli, spirito libero




"A Vespa é especial, tem personalidade própria. Além de ser uma scooter, o que implica maior segurança e protecção que uma mota, inclusive da chuva e vento,  é confortável, fiável e o facto de não andar depressa obriga a uma maior tranquilidade, menos stress, podemos ver as árvores, as nuvens, até meditar. Ao conceito de viajar de mota está inerente um frenesim que a Vespa não carrega, por vezes sinto que faço uma viagem iniciática, como se subisse um rio ou viajasse num lago calmo. Também gosto de comparar com a sensação que se encontra ao fazer mergulho, aprende-se uma paz e tranquilidade, como se de planar se tratasse, que sem dúvida nos ajuda para a vida fora de água...
Viajar assim durante tantos anos, sem ver o fim da viagem, por tantas culturas diferentes, obriga e ensina a ter paciência, a não querer tudo logo, dá-nos armas que ajudam a fugir do consumismo típico dos tempos de hoje".


No próximo dia 16 de Setembro decorreram 3 anos desde a morte de Giorgio Bettinelli, sem dúvida um dos grandes viajantes do nosso tempo, que passou catorze anos a dar a volta ao mundo em Vespa, primeiro numa PX 200 e mais tarde em GT.

Há algum tempo, de passagem em trabalho pela Luanda que revia muitos anos depois, estava na Ilha com um amigo e reparei que alguém assobiava  a canção Blackbird dos Beatles. Ao prazer do sol quente africano, das recordações de tempos há muito idos, juntou-se a nostalgia dum som que me tem acompanhado quase toda a vida, como se toda a restinga fosse música.

"Sabes, aquele tipo deu a volta a África de Vespa, tudo pago pela Piaggio! Encontrei-o ontem na Teixeira Duarte, parece que tratou de toda a logística em Angola, com o apoio daquela empresa", foi dizendo o meu amigo enquanto lhe lançava um aceno.

Voltei a vê-lo à noite, no restaurante Restinga, copo de marufo na mão (mais tarde explicou-me que tinha por hábito em cada país por onde passava experimentar uma bebida local, cachaça no Brasil, rum na Jamaica, Vodka na Rússia, chibuki no Zimbabwe, Pastis na França, coleccionando sabores).

Já tinha ouvido falar desse Giorgio Bettinelli, sabia que tinha relatado em livro algumas das suas viagens na Ásia, sempre de Vespa. Contou que estava de novo em Luanda para acertar algumas dúvidas, agora que andava a escrever sobre a volta a África.

No fim da noite, cansados de rebitas e outras danças, espantei-me ao ver que se afastava numa velha Casal Boss azul, vestígios de uma presença já bem longínqua. " É bem portuguesa e gira" lançou no seu português de rua, uma das seis línguas assim aprendidas (inglês, indonésio, espanhol, russo e francês), a que se somava o seu italiano natal.

No dia seguinte, na esplanada do cinema Miramar, conversámos mais longamente. Bettinelli facilmente inspirava simpatia, talvez pela fragilidade física que aparentava e que encaixava num ar um pouco lunático, ou quem sabe se pela ligeireza e simplicidade com que relatava as suas aventuras.

Explicou-me que desde miúdo sentia essa constante vontade em partir, e daí ter passado a adolescência e juventude viajando à boleia, numa errância que não o impediu de fazer teatro e música e de se licenciar em Literatura pela Universidade de Roma. A partir de certa altura sentiu que já não lhe bastava o ser viajante, queria mais do que "apenas ver as pessoas e a paisagem passarem pela janela dum combóio", desejava tocar-lhes, senti-las, entrar nelas, daí ter vivido um ano em Moçambique colaborando com a FAO, outro ano na India "divagando no limiar de zonas perigosamente aditivas", mais dois anos na Indonésia, onde recebeu como paga de dívidas uma Vespa e descobriu a companhia que lhe faltava. " Então a minha vida mudou, não gozem, conduzi vários modelos, a desta volta a África recebi-a nova aqui em Luanda em Julho de 1999, após dias complicados no Congo em que escapei com vida por pouco mas a Santa Maria não, a primeira era a Nina, outra foi a Pinta, esta de Angola foi a primeira sem nome, mas nunca fui  apanhado em intimidades com nenhuma…", explicava entre gargalhadas.

Depois deste encontro perdi-lhe o rasto, sei que escreveu mais dois livros e que faleceu em 2008 na sua casa debruçada sobre o rio Mekong, preso aos encantos orientais de Ya Pei, que conhecera em Kathmandu, ficando então com companhia e companheira.

A sua obra, toda escrita em italiano, não está traduzida em qualquer língua, mas sem grande dificuldade percebi serem belos guias de viagem, ligando o dia a dia com rigorosos elementos históricos, sociais, culturais e mesmo políticos. Sem dúvida o maior aventureiro em cima de uma Vespa, catorze anos atravessando cinco continentes sem nada saber de mecânica, Bettinelli vai desenrolando o que lhe acontece, nunca duma forma monótona, há sempre alguma coisa a contar, existem sempre histórias ou memórias para colorir o enredo. Aldeias, cidades e países sucedem-se vertiginosamente, por vezes em catadupa, até os continentes se aproximam, mas raramente viajamos por páginas desinteressantes ou repetitivas, sem duvida companheiros ideais dos Lonely Planet que Bettinelli não dispensava.

Para além da volta a África onde quase perdeu a vida entre rebeldes no Congo, atravessou a gelada Sibéria, pisou o lago Baikal, chegou à Tasmania. Atravessou toda a América do Norte e a Patagónia, assentou na China até partir para a imortalidade de que fala Borges: "lá bem no fundo todos nos consideramos imortais, como se animais fossemos que assim se consideram por não ter consciência dessa inevitabilidade, ou não teríamos força para qualquer risco, temendo cada viagem poder ser a última".

Mas atenção, a Vespa é um elemento discreto nestas histórias, apenas existem referências pontuais e curtas, embora bem significativas para quem conhece os prazeres que proporciona. Muita mais que vespista ele era um artista que se transportava de Vespa, sendo os seus livros atractivos e úteis para qualquer turista ou viajante. Relata encontros de viagem, comenta músicas que vai ouvindo e diversos espectáculos de rua a que assiste, expondo memórias que vão chegando, escrevendo de forma cómica ou irónica, zangada ou triste, sempre numa narrativa pessoal e mesmo introspectiva. 

O seu último livro conta aventuras chinesas, onde encontrou a serenidade só possível após ter gradualmente soltado na estrada a inquietude que o dominava, possibilitando-lhe um estado emocional que conduziu ao amor que partilhou com Ya Pei.

"Nas últimas viagens já sentia falta de alguma coisa, desejava partilhar o que me acontecia com alguém que estivesse em sintonia comigo", escreveu algures.

Admirador de Brecht e Dostoyevski, chegou a ter uma banda, Pandemonium, e gravado um disco. Juntamente com Lucio Fabri, violinista seu conterrâneo de Crema, estava a preparar novo disco quando partiu para a mais triste das suas viagens. Seriam canções nascidas durante os catorze anos de aventura, quais petiscos crioulos, caldos de cultura, como se a Vespa fosse caravela, a imaginação porão do navio e a viola tacho de sabores, a que chamou Dovunque sia (estejas onde estiveres). Na tua ultima viagem, iniciada enquanto dormias, que sons estarás a ouvir? 

Apresento a lista de todos os livros publicados, relembrando que com edição apenas em língua italiana, não existindo qualquer tradução noutra língua, nem mesmo em inglês. Para além do interesse geral da obra, a sua ligação à presença portuguesa em outros países - veja-se o que relata de Macau e principalmente de Moçambique e mesmo Angola - penso que merecia edição em língua portuguesa. Quase todos estão disponíveis através da internet, alguns com download gratuito em books.google.com/


La Cina in Vespa
Publicado em 2008 pela Feltrinelli, 348 páginas
Atravessa todas as províncias e regiões especiais chinesas, incluindo Macau e o Tibet

Rhapsody in black. In vespa dall'Angola allo Yemen
Publicado em 2005 pela Feltrinelli, 331 páginas
Tudo começa em Angola, passa por Moçambique…

Brum Brum: 254.000 chilometri in Vespa
Publicado em 2004 pela Feltrinelli (1.º edição em 2002), 393 páginas
A tal viagem que acaba abruptamente no Congo

In Vespa. Da Roma a Saigon
Publicado em 1997 pela Feltrinelli, 300 páginas
Narra a sua primeira viagem

In Vespa oltre l´orizzonte
Publicado em 1997 pela Rusconi Libri, 256 páginas
400 fotos sobre a primeira viagem

Em Setembro de 2008 Ya Pei, esposa de Giorgio, anunciou a sua morte com estas tocantes palavras:

Sono triste, desolata ma Giorgio non è più con noi, 
vola libero come un uccello, 
è in viaggio, ma in un altro mondo, 
freddo. 
Giorgio voleva scrivere un libro sul Tibet, 
ma non può più farlo, 
ora ha bisogno di dormire. 
Non so cosa posso fare per continuare il suo sogno, 
alle sue parole e al suo amore verso di noi. 









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