ANGOLA BLUES e outras histórias em tons de jazz
Palpitam-me/ os sons do batuque/ e os ritmos melancólicos do blue// Ó negro esfarrapado do Harlem/ ó dançarino de Chicago/ ó negro servidor do South/ Ó negro de África/ negros de todo o mundo/ eu junto ao vosso canto/ a minha pobre voz/ os meus humildes ritmos
Agostinho Neto. Voz do Sangue, in Renúncia Impossível 1948
Quando Agostinho Neto escreveu este poema, em 1948, já Leadbelly tinha composto o tema Angola Blues, gravado pelo musicólogo Alan Lomax na antiga plantação de escravos vindos de Angola no Louisianna, então já reconvertida em prisão tenebrosa. Depois de Angola Blues surgiram diversos outros temas que denunciam as terríveis condições na Louisiana State Penitentiary, como os recentes trabalhos do saxofonista Howard Williams, mas foi com Junco Partner, gravado em 1951 pelo cantor americano de Rythm and Blues James Waynes, que a situação passou a ser mais conhecida, com diversas versões incluindo a do grupo punk Clash no álbum Sandinista de 1980
Singing 6 months ain't no sentence
And one year ain't no time
I was born in Angola
Serving 14 to 99
É essa aproximação entre escravatura e condição do negro em meados do século passado que Agostinho Neto transmite em muita da sua poesia, tornando-se dos primeiro autores lusófonos a utilizar imagens claramente ligadas às raízes africanas dos blues e jazz, com constantes alusões ao batuque, à dança, às artes africanas, numa palavra ao Ngoma, contribuindo à sua maneira para a introdução em Angola do movimento Negritude, onde Léopold Senghor foi figura predominante.
Talvez de forma ainda não devidamente estudada, essa ancestral ligação de gentes de Angola à história do jazz tem sido expressa, directa ou indirectamente, em tons de muito sofrimento, mas também lembrando heróis e lutas que merecem ser contadas, onde a dor vai dando lugar à esperança, como tão bem se encontra no poema Mamã Negra de Viriato da Cruz
Vozes de Harlem Hill District South
vozes das sanzalas!
Vozes gemendo blues, subindo do Mississipi, ecoando
[dos vagões!
brilhem, brilhem, batedores de jazz
rebentem, rebentem, grilhetas da Alma
evade-te, ó Alma, nas asas da Música!
...do brilho do Sol, do Sol fecundo
imortal
e belo...
São imensas as referências à musica africana na literatura angolana, não apenas em Agostinho Neto e Viriato da Cruz. Já em 1932 o poeta português Vieira da Cruz então a viver em Angola, considerado um dos precursores da
literatura angolana, denunciava sofrimento nos sons negros, tornado-se num dos primeiros autores lusófonos a utilizar símbolos de musica africana
Indo mares fora, mares bravos,
em noite primaveril
acompanhando os escravos
que morreram no Brasil.
...
Mas deixa a vida que tange,
exaltando as amarguras,
e as mais tristes desventuras
do meu amado Quissange!
Kissange- saudade negra
ou mais ainda numa clara aproximação aos espirituais negros seu poema Bailundos de 1942
Mas a triste
comitiva
…
vai seguindo o seu destino
cantarolando noturnos
de baladas inocentes
No mesmo sentido merece também referência o romance Terra Morta de Castro Soromenho, publicado em 1949, onde se ouve
Um canto arrastado e mon.tono veio de longe, (…) e pairou, alongado pelo eco, sobre a vila de Camaxilo. ... Eram os negros das senzalas que marchavam, a caminho da vila, com cargas de cera .s costas, a cantar as suas velhas can..es de mercadores errantes. O canto tornou-se harmonioso e mais triste, quando a caravana come.ou a descer a encosta... O sipaio Caluis estendeu o pesco.o e fi cou, de olhos semicerrados a escutar...E começou a cantar baixinho, num lamento, acompanhando a cantiga que vinha dos longes. Era uma canção da suaterra, que muitas vezes cantara quando...vinha da aldeia negociar com os brancos de Camaxilo.
É um pouco dessa vivência que vamos encontrar neste levantamento, descobrindo alguns dos caminhos onde poesia e outras aventuras se cruzaram com musica negra durante o período colonial em Angola, mais particularmente o jazz e as suas raízes, com salpicos de temas que poderão melhor ilustrar as ideias, confirmando o que Lopes Graça escreveu em Reflexões sobre a música
O homem e o seu destino, o homem e a sua salvação: eis o grande tema de toda a grande obra de Arte. Especialmente daquelas modalidades da Arte que são capazes de animar, agitar, alevantar o homem, despertar -lhe
sentimentos, criar -lhe paixões, insuflar -lhe ideais, fecundar-lhe pensamentos – e a musica é uma dessas.
A alma negra do Jazz
Os primeiros relatos de práticas performativas musicais em África aconteceram a partir do séc. XVI, podendo encontrar-se relato dessas experiências no então Reino do Congo e no Reino de Angola na descrição do comerciante português Duarte Lopez que, pela mão de Filippo Pigafetta, nos fala em 1591 de músicos "que exprimem os seus pensamentos e fazem-se compreender tão bem, que tudo o que se diz com palavras, eles fazem-nos com os dedos, tocando o instrumento"
De facto, conforme escreve Leonardo Acosta em Musica e Descolonização, "o ideal musical dos africanos é a expressividade de cada som e não a sua pureza, revelada não apenas pelo ritmo mas também pela melodia", o que nos transporta para a definição de musica negra, designadamente do jazz, do Director do National Jazz Museum in Harlem: "It is the most immediate form of musical expression in existence, and the language that we use to state our deepest, truest feelings".
Apetece ouvir Duke Ellington & John Coltrane - The Feeling Of Jazz (1962)
O inicio da saga angolana está bem contada na interessante série da responsabilidade do canal de TV americano PBS, designada Slavery and the Making of America. Logo no primeiro episódio, narrado por Morgan Freeman, refere-se a chegada em 1619 de dezanove escravos africanos vindos de Angola a Jamestown, na Virginia, inciando-se assim um negócio que se prolongaria, legalmente, até 1865. Desse grupo faziam parte Ângela, John D'angola e Antonio de Angola, tornando-se assim pioneiros no transporte de sons e sofrimento africanos para a pátria geográfica do jazz. Curiosamente, Antonio de Angola terá também ficado na história por ter sido o primeiro escravo que após ganhar a libertação se tornou num rico fazendeiro de tabaco e mesmo mercador de escravos...mas isso são outras novelas...
O mesmo episódio transmitido pela PBS termina com a célebre Stono Rebellion, revolta comandada por Jemmy d´Angola, herói no verdadeiro sentido da palavra, que utilizou "tambores, danças e cantares para atrair mais companheiros que se juntaram aos 60 iniciais, ajudando também à união entres os revoltosos", conforme relatos oficiais da altura. Corria o ano de 1739 e os seus gritos de "liberdade, marchemos com panos coloridos e toquemos os nossos tambores" foram sufocados ao serem massacrados sem piedade. Daqui resultou o famigerado Negro Act de 1740, que tornou a condição de escravo ainda mais miserável, estabelecendo-se mesmo que "drums, horns, or other loud instruments" ficariam proibidos de ser utilizados por escravos! Curiosamente, se o batuque foi proibido, já o mesmo não aconteceu com as congadas ( subtil distinção) por estas permitirem divertimentos menos pecaminosos (ver Brazil at the Dawn of the Eighteenth Century por Andre João Antonil).
Outro herói angolano foi Antônio Angola, escravo do Padre Toledo, cantado por Carlos Drummond de Andrade no poema Inconfidencia Mineira, ao comentar a revolta (entre 1788 e 1789) dirigida por elites de mercadores de escravos luso-brasileiros contra o domínio português
Tem dois escravos Padre Toledo:
José Mina, que toca trompa,
Antônio Angola, rabecão.
O padre mete-se no rocambole
da insurreição.
A Real Justiça levanta o braço
da repressão.
Engaiola o padre na fortaleza
de São Julião.
Confisca os músicos, confisca a trompa
e o rabecão.
Música-gente, crioula música
duas vezes
na escravidão.
Uma das características da Globalização passa pelo sublinhar da transculturalidade, isto é, as proximidades físicas e virtuais possibilitam a apreensão de culturas diferentes, podendo daí surgir identidades culturalmente originais. Poderá mesmo afirmar-se que existem hoje construções musicais onde a questão da origem geográfica se torna impossível de localizar, tal a facilidade e por vezes superficialidade com que se trocam experiências culturais.
Com as grandes viagens marítimas passou-se situação semelhante, e o jazz é disso bom exemplo: a sua principal característica é ser um género musical tipicamente "impuro" (veja-se Jazz e Multiculturalismo de David Rodriguez), e talvez seja essa a grande razão para se ter tornado intemporal e globalizado. De facto, dos diversos géneros musicais que nasceram do cruzamento de sons africanos com outros sons, o jazz é o que provavelmente mais transformações sofreu: basta lembrar as diversas escolas que foram surgindo a partir dos sons de New Orleans (swing, bebop, cool, hard bop, free, sem esquecer a tentativa de levar o jazz à opera de Ernst Krene, etc) lembrando mesmo que para alguns Debussy antecipou sons jazisticos no 3.º andamento da sua sinfonia La Mer!
Na imensa bacia hidrográfica do Mississipi, polo de atracção com mais de 280.000 habitantes, Nova Orleans justificava porque era chamada de Big Easy: na ainda agora excitante Congo Square, em bares e casas de jogo de Storyville, durante o Carnaval (Mardi Gras) ou todo o ano na zona portuária (Vieux Carré ou French Quarter), um mundo complexo vibrava " with a style of drumming also originated among people of Kongo-Angola heritage" como escreve Freddi Williams Evans no catálogo “Ancestors of Congo Square,”, organizado pelo New Orleans Museum of Art: NOMA
Manuel Lima, guerrilheiro do MPLA e dirigente da Casa dos Estudantes do Império, de que melhor falaremos à frente, no seu poema América do livro Kissange 1960 tenta recriar por palavras a vivência de então
Mas quando chegares a New Orleans
olha para os meus dentes teclas
de jazz,
minhas pernas múltiplas
de jazz,
minha cólera ébria
de jazz,
olha os mercadores da minha pele,
olha os matadores ianques
pedindo-me
jazz,
one
two
three
jazz,
sobre o meu sangue,
jazz,
milhões de palmas para mim
jazz
Para o cenário ser perfeito, pode ouvir-se o tema Congo Blues de Red Norvo ou, para mais perto da cena original o album Congo Square - Jazz at Lincoln Center Orchestra com Wynton Marsalis
Na verdade, em finais do séc. XIX o grande centro portuário de Nova Orleans tornara-se num autentico laboratório de culturas, onde da convivência entre descendentes de antigos escravos libertados, muitos provindo de zonas limítrofes procurando trabalho, influências europeias variadas e mulatos de cultura ocidental mas rejeitados da convivência dos brancos, surge uma miscigenação musical que deu origem ao jazz: canções de trabalho e cantos sofredores trazidos de África que evoluem até ao que se designa por blues, misturando-se com os pianos ragtime de Scott Joplin e alguns pozinhos das brilhantes polcas e mazurcas das elites brancas!
Interessante é também quando mais tarde o circulo se completa, quando o jazz volta ao continente original e se moderniza (Kubik chama-lhe o "cradle of the blues" no livro Africa and the Blues): Manu Dibango e o seu Soul Makossa de 1972, o Soukus congolês, o Mbaqanga na África do Sul, Beni Ngoma na Tanzânia, etc. No texto História da Música Angolana, embora noutro contexto, Mário Rui refere que "quando Angola aparece em 1885 com as suas fronteiras traçadas na conferência de Berlim, já os efeitos do retorno das culturas musicais exportadas pelos escravos (Brasil e Portugal) se faziam sentir em Luanda, tanto mais que as duas composições: Madya Kandimba, de 1875 e Kinjangu de 1884 já se encontravam com escalas musicais definidas: a maior e a sua menor relativa".
Trata-se de um claro exemplo onde transculturalização não significou aculturação, onde o total é mais do que a soma das partes que lhe deram origem.
É bom sublinhar que grande parte dos géneros musicais existentes têm raiz africana: desde logo o samba a nascer do samba angolano, o tango argentino, as cafrinhas (musica kaffir) do Sri Lanka, mas também o fank e o calipso, o reggae e, claro, o kuduro, entre muitos outros. Temas actuais como Angola, êxito de 2013 do norte americano Jah Bouks, ou Pablo Moses e o seu raggee We Should Be In Angola bem o confirmam!
Há mesmo autores que encontram nos "descantes alentejanos" (Amilcar Cabral em A Resistência Cultural) "um sabor de melopeias, talvez monódias chamados mornas de origem mourisca e afro-negra" (ver Germano Lima em Boa Vista, Ilha da Morna e do Landú, in Morna: O planger dos escravos? de Romina Cameiro)! Seja como for, o Canto do Ladrão do Sado, lenda da Ilha dos Pretos, tradição da aldeia de São Romão a 14 km de Alcácer do Sal onde no sec. XVIII se fixou uma grande colónia de escravos negros vindos da África Ocidental, deixa pistas que justificaram que o Município daquela cidade tenha aprovado o Plano de Salvaguarda para o Ladrão do Sado e aprofunde a misteriosa origem daquele canto, na sequência duma pesquisa efectuada em 1984 por Jacometti.
Quem quezer ver moças
Da cor do cravão,
Vá dar um passeio
Até S. Romão.
Veja o nosso Sado,
Não tenha receio,
Até São Romão
Vá dar um passeio.
Quando eu chegui
À Rebêra do Sado
Vi lá uma preta
De beco virado.
Se tiver resposta
Responda-me à letra
De beco virado
Vi lá uma preta.
O Senhor dos Mártires
Cá da Carvalheira
É o pai dos pretos
De toda a Ribeira.
Lavrador João
Quem lho diz sou eu:
Se ele é pai dos Pretos
Também o é seu.
O jazz em português
Segundo João Moreira dos Santos os primeiros artigos sobre jazz em Portugal remontam a 1919 no Jornal a Capital, enquanto que Suzana Sardo refere que em jornais e revistas como ABC, ABCêzinho, a Tarde, Ilustração Portuguesa, Diário de Noticias, Diário Popular surgem textos assinados por Ferreira de Castro (1925), Antonio Ferro (1924), Almada Negreiros (1925), Repórter x (1926) ou Triska (1926) (ver Os Mensageiros do Jazz).
Repare-se que o primeiro poema em língua portuguesa sobre jazz apenas surgiu em 1925, pelo poeta brasileiro Manuel Bandeira
Não sei dançar
Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria.
Tenho todos os motivos menos um de ser triste.
Mas o cálculo das probabilidades é uma pilhéria...
Abaixo Amiel!
E nunca lerei o diário de Maria Bashkirtseff.
Sim, já perdi pai, mãe, irmãos.
Perdi a saúde também.
É por isso que sinto como ninguém o ritmo do jazz-band.
Uns tomam éter, outros cocaína
Eu tomo alegria!
Eis aí por que vim assistir a este baile de terça-feira gorda.
Este poeta e outros do Brasil vão influenciar intelectuais progressistas angolanos, fazendo com que Maurício Gomes em 1958 clamasse no poema Exortação
Ribeiro Couto e Manuel Bandeira
poetas do Brasil
do Brasil, nosso irmão,
disseram:
“— É preciso criar a poesia brasileira
de versos quentes, fortes como o Brasil,
sem macaquear a literatura lusíada.”
Angola grita pela minha voz
Pedindo a seus filhos nova poesia!
Mas vejamos como a musica negra era vista em Portugal ainda em meados do século XX
Em Os Anos vinte em Portugal, José Augusto França refere que a propósito da vinda a Portugal de espectáculos musicais com artistas negros (Black Folies, Harry Fleming, etc, esta reclamada como a "a primeira orquestra de jazz em Portugal"), em artigos de Mario Azenha no Diario de Lisboa de 11 de Março de 1928 e Jornal dos Teatros de 8 de Novembro de 1928, se protesta contra tanta escarabuncracia, fantochada negreira, fedor a catinga, pretalhada que nos servem... tudo isto possivelmente em resposta a António Ferro, que já em 1922 se pronunciara sobre o jazz-band na conferência A Idade do Jazz Band, embora a relação deste autor ligado à ditadura com o jazz ainda esteja por esclarecer devidamente...
Outro triste exemplo: num artigo do ABC de 14 de Outubro de 1926 chamado "Como nasceu o Jazz-Band", entre teorias como "foi em feiras e arraiais do Minho por um conhecido Homem dos Sete Instrumentos que emigrou para Boston", inclui-se a hipótese da origem negra porvir "duma aldeia de pretos, com os clássicos macacos e batuques, com um tambor e algumas pistolas roubadas aos brancos, organizaram-se constantes festas...e todos os outros pretos bailam e cantam demoniacamente"!
Ainda em 1939, António Gonçalo Molho de Faria, professor de Teologia em Braga, escrevia Os Bailes e a Acção Católica, onde afirmava que "nos bailes temos, sim, essa máscara de musica ordinária e ligeira, por vezes esse nojento batuque de pretos, esse jazz infernal que em nós tudo movimenta e enerva, que tresanda a sensualismo o mais grosseiro"
Entende-se assim melhor o que representou de corte com a situação social vigente a poesia que os intelectuais das colónias trouxeram a partir de finais dos anos 40
Calcule-se se Molho de Faria já conhecesse o "libertino" poema “Aspiração” 1949 de Agostinho Neto...
Ainda o meu canto dolente
e a minha tristeza
no Congo na Geórgia no Amazonas
Ainda
o meu sonho de batuque em noites de luar
...
Ainda o meu espírito
ainda o quissange
a marimba
a viola
o saxofone
ainda os meus ritmos de ritual orgíaco
A Casa dos Estudantes do Império
Quando a música negra americana invadiu os salões da Europa, os negros de todo o mundo sentiram com os seus irmãos americanos a alegria de poderem ser ouvidos, mesmo através do trompete. Os murros de Joe Louis foram aplaudidos em todo o mundo negro
Agostinho Neto, “Introdução a um Colóquio sobre a Poesia Angolana.” 1959. in João Luís Rafael Mitras
Durante os anos quarenta e cinqüenta do século XX os poetas africanos de língua portuguesa vão lançar mão de vários modelos que melhor auxiliem a definir a sua identidade, dos quais destacamos, no caso de Angola, Langston Hughes e Guillén, citados por Viriato da Cruz no poema “Mamã negra”, Ngola Kiluanji e a Rainha Ginga, citados em “Ao içar da bandeira” por Agostinho Neto, bem como diversas figuras e temas ligados ao Jazz e a outras áreas sociais, políticas e desportivas.
É dentro desse objectivo que estudantes das colónias se juntam na Casa dos Estudantes do Império (CEI), instituição fundada em Lisboa no ano de 1944 com o apoio do Governo com o objectivo de formar quadros para o apoio à política ultramarina segregacionista, mas que serviu afinal como veículo para a libertação colonial, na sequência de um fenómeno literário que ficou conhecido pela "geração mensagem", onde para além de Agostinho Neto também Viriato da Cruz e António Jacinto haviam colaborado.
Logo em 1947 Agostinho Neto, talvez influenciado pelo desencanto na poesia de Drummond, escreve Ópio, publicado no Meridiano (boletim da secção de Coimbra da Casa dos Estudantes do Império). Trata-se de um protesto social, talvez o primeiro poema de um autor das colónias em que se encontram referências directas ao jazz. Note-se ser 1947 um ano importante pois apenas nesta altura começam a surgir em Portugal textos sérios onde se reflecte sobre a origem e evolução da musica negra, tendo o Hot-Clube de Portugal surgido em 1950
Casaram-me com a tristeza!
A minha terra
negra de sol
-a minha Mãe-
que entoa magoadas melodias
em noites de festa
quando a lua ri
e a enigmática floresta
farfalha ritmos de jazz,
-a minha Mãe-
deu-me tristeza em casamento
quando nasci.
Entre os estudantes que participavam nas actividades da CEI e que utilizaram imagens ligadas ao jazz na sua poesia, com relevo para José Craveirinha e Noémia de Sousa - talvez a primeira escritora a utilizar jazz na poesia lusófona (“Samba”, “Let my people go” e “A Billie Holiday cantora”, entre outros poemas escritos nos anos de 1949 a 1952) - um caso que pensamos merecer especial menção, pela sua originalidade, é o de outro poeta moçambicano, Rui Knopfli que, ao contrario de outros, via o jazz e a América numa perspectiva cultural e não nacionalista (ou de um nacionalismo «submerso», como diz Fátima Monteiro, O país dos outros. A poesia de Rui Knopfli.
Você compreende Thelonius Monk?
Não. Você não o entende.
Até lhe desagrada e o inquieta
aquela forma esquisita
de ter o passo oblíquo e trôpego
e de deixar tombar a nota
não quando você a espera,
mas um momento antes ou depois,
sempre depois se a espera antes,
sempre antes se a espera depois.
Não finja. Eu sei que o incomoda
e o irrita o modo impertinente
com que faz rilhar o dente
ao piano, com que pulveriza
as semibreves. De Dinah
a Bolivar blues não se vai
nas cordas doces de um violino;
tem de se ir pisando duro
mas com cautela e precaução
doseando silêncio e som
opondo ao vazio mensuração.»
Voltando a Agostinho Neto, muito interessante é a ligação do som dos batuques ao ritmo dos blues no poema Voz de Sangue de 1948, sublinhando a origem africana dos blues americanos e a necessidade de uma noção abrangente na luta dos povos, como testemunha que foi na infância do regime esclavagista dos trabalhadores de algodão de Icolo o Bengo, ou dos contratados para as plantações de café na região dos Dembos, no Piri, onde viveu com os seus pais
Palpitam-me
os sons do batuque
e os ritmos melancólicos do blue
Ó negro esfarrapado do Harlem
ó dançarino de Chicago
ó negro servidor do South
Ó negro de África
negros de todo o mundo
eu junto ao vosso canto
a minha pobre voz
os meus humildes ritmos
Note-se que em 2007 o artista guineense Zé Manel, no álbum African Citizen, com uma versão musicada deste poema, ganha prémio para melhor melhor canção africana nos EUA da revista Just Plain Folk .
Quando em 1958 Raul Calado e José Duarte criam em Lisboa o Clube Universitário de Jazz (CUJ), após cisão com o Hot Club de Villas Boas, a componente de resistência ao poder salazarista que terá motivado a dissidência cria condições para uma estreita colaboração com a CEI, procurando contribuir para a consciencialização revolucionária dos intelectuais das colónias através da divulgação do jazz como veiculo para o reforço da sua identidade política e cultural com a africanidade, na linha de Langston Hughes e o seu poema O negro fala sobre rios
Todos os tantãs do mato batem no meu sangue. Todas as luas selvagens e ferventes do mato brilham na minha alma
A colaboração entre a CEI e o CUJ, matéria bem aprofundada pelo investigador do Centro de Estudos de Jazz da Universidade de Aveiro Pedro Cravinho (a quem muito agradeço achegas e correcções propostas a este texto), passou pela organização de diversas sessões fonográficas, com relato detalhado no seu boletim Mensagem, inclusive depois do CUJ ter sido fechado pela PIDE em 1961, conforme se pode ver por esta notícia no n.º 1 de 1962: "Uma anunciada sessão de jazz e kwelle, comentada pelo distinto critico dr. Raul Calado...de bom nível musical, foi seguida com o maior entusiasmo por parte do numeroso auditório...terminou a cessão com a apresentação de kwella, esse ritmo negro sul-africano tão pouco conhecido entre nós"
A viver em Angola mas também colaborador da CEI e membro fundador da União dos Escritores Angolanos, o poeta António Jacinto, com obra na quase totalidade escrita na prisão do Tarrafal, dedica a "Antonica na Barra do Dande" o poema Bailarina Negra, onde jazz é sinónimo de amor, integrado na sua "Colectânea de poemas" editada em 1961 pela CEI
A noite
(Uma trompete, uma trompete)
fica no jazz
A noite
Sempre a noite
Sempre a indissolúvel noite
Sempre a trompete
Sempre a trépida trompete
Sempre o jazz
Sempre o xinguilante jazz
Amor
ritmo negro
no teu corpo negro
e os teus olhos
negros também
nos meus
são tantãs de fogo
amor.
O começo da luta de libertação e Angola nos anos 60
O poema de António Jacinto transporta-nos para as fronteiras de Angola, onde a partir dos anos 40 os bairros periféricos das maiores cidades começam a atrair muita população das zonas rurais, palpitando numa complexidade e "mística ansiedade" onde Agostinho Neto, no poema Sábado nos Musseques de 1948, encontrava "bocas escancaradas a gritar swing"
Os musseques são bairros humildes
de gente humilde
Vem o sábado
e logo ali se confunde com a própria vida
transformada em desespero
em esperança e em mística ansiedade
...
Ansiedade
nos alto-falantes do cinema
de bocas escancaradas
a gritar swing
ao pé das bilheteiras
enquanto um carrocel
arrasta em turbilhões de sonho
luzinhas vermelhas verdes azuis
e também
a troco de dois mil e quinhentos
namorados e crianças
Dessa vivência suburbana em Luanda surge O Ngola Ritmos, grupo musical que ao misturar sons novos e tradicionais a que juntou evidente cunho político começou a delinear de forma mais nítida a diferença entre música suburbana e urbana, não deixando também de adaptar ao semba velhas canções portuguesas, como Teodoro não vás ao sonoro! Eduardo Lara Filho "pediu" a um dos seus fundadores, Aniceto Vieira Dias (Liceu) que também viesse cantar no seu funeral
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Quando eu morrer
Quando eu morrer
eu quero que o N'Gola Ritmos
vá tocar no meu enterro.
Como Sidney Bechet
como Armstrong
eu gostarei de saber
que vocês
tocaram no meu enterro.
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Os anos 60 em Angola caracterizaram-se pelo começo da luta armada de libertação nacional dirigida pelo MPLA, que durante 14 anos levou milhares de soldados portugueses a combaterem um povo que apenas desejava a legitima independência. Lembremos que no 1.º Festival de Jazz de Cascais em 1971 Charlie Haden, contrabaixista do Quarteto de Ornette Coleman dedica Song for Che aos Movimentos de Libertação das colónias portuguesas. Mais tarde o mesmo Charlie Haden no seu álbum Closeness de 1976, com Paul Motian na percussão, inclui a faixa "For a Free Portugal", onde se dão vivas MPLA Liberdade ou Morte e a outros movimentos de libertação, acompanhados com sons retirados do interessantíssimo álbum Angola: Vitória é Certa, editado pela Paredon em 1970, onde facilmente se descobrem as raízes dos blues!
Outra curiosidade: em 1965 Wayne Shorter grava Footprints: The Life and Work of Wayne Shorter, que continha duas versões da composição Angola (considerada das composições mais inovadoras daquela época), que possivelmente terá dedicado à sua primeira mulher, Ana Maria Patricio, que conheceu em 1964 e que viveu a sua infância em Angola. Certo é que lhe dedicou Lusitanos, tema do álbum Tale Spinnin que gravou com os Weather Report em 1975.
Um desses soldados foi Fernando Assiz Pacheco, jornalista mobilizado para Angola entre 1963 e 1965 e dos primeiros poetas a escrever sobre a guerra colonial, encontrou no jazz algum conforto
....
Abençoados os campos de minas: ninguém sabe, ch.
Abençoado o aviso de Ezra Pound «that war
is the destruction of restaurants».
Abençoado o ouvido para a música.
Abençoado um ceguinho qualquer
(George Shearing, Roses of Picardy)
Abençoado o ponteiro mais pequeno.
Abençoada a noite longa.
Abençoado o suor na virilha que é bom sinal.
...
Rascunho e Framentos
A herança do Ngola Ritmos alargou-se nos anos 60 e seguintes, com diversos grupos a animar as zonas suburbanas de Luanda e outras cidades, com possíveis ligações ao jazz que merecem tratamento aprofundado que não cabe neste texto, designadamente através da influência cubana após a independência.
Mas também na "cidade branca" surgiram figuras que posteriormente deixariam marcas no campo musical. Lembremos luis Cilia em 1964 com Portugal-Angola: Chants de Lutte de 1964, Fausto e as sua versões de poetas angolanos ou Fernando Girão (o Very Nice do Grupo 5) a colaborar com Rao Kyao, em 1976, na gravação de Malpertuis, um dos primeiros discos de Jazz gravados em Portugal por músicos portugueses. Merecem também menção os Windies, que curiosamente entre 1968/69 tocavam um tema chamado Rythm an Blues (Revista Noite e Dia Outubro 1968), onde cada membro "dava largas" à criatividade e improviso, com relevância para os longos solos do percurssionista Beto Kalulu, que mais tarde viria a tocar no quarteto de Manuel Guerreiro no Festival de Jazz de Portimão. A maior parte destes músicos surgiram assim de "conjuntos" que actuavam em festas ou festivais, merecendo especial realce, pela sua constante ligação à divulgação do Jazz, José Andrade (ZAN), que criou em Luanda Os Electrónicos. Artista plástico, Zan "foi, sem dúvida, o primeiro membro de uma geração pioneira de angolanos que fez e continua a fazer uma revelação militante, apaixonada e continuada do Jazz", conforme escreve o seu amigo Jerónimo Belo numa "breve história do Jazz em Angola" publicada em Revista TAAG n.º 76 Nov/ Dez 2009
ouvia-se um trio com trompete de chet baker
...
A voz de chet baker a cantar é como uma vadiagem ébria
incluído em POEZZ de José Duarte e Ricardo Alves
Outra figura ligadas ao Jazz nos anos 60 e 70 em Angola é Mario Rui Silva, fundador do conjunto Os Jovens, que em 1973 declarava no poema Museu
O que ergueram meus braços
não está em África
a minha música
não está em África
a minha estatuária
não está em África
idem para o meu marfim
as minhas lanças
os meus diamantes
o meu ouro
idem
idem
in " A Onda"
Muito mais haverá a descobrir, para já fiquemos com a poesia de David Mestre que em 1971 fundou e dirigiu o grupo Poesias – Hoje, foi director do Jornal de Angola e era membro da Associação Internacional de Críticos Literários e da União dos Escritores de Angola
Tua voz desliza como um pássaro aberto na lâmina
[do dia
ilha que se levanta e voa a partir do Sol
lamento gritado da floresta por sua gazela perdida
choro grande do vento nas montanhas
ao nascimento de um escravo mais na história do
[vale
Tua voz vem de dentro da cidade
de todas as ruas bairros e leitos da cidade onde houver
um colar de pernas
contar o silêncio das horas guardadas a soco no sarilho
dos ventres
com um jazzman a assobiar na escuridão dos pares
a memória ácida do chicote
nos porões do Mundo
Blues, incluído em Subscrito a Giz: 60 poemas escolhidos (1972-1994)
E é sublinhando a incontornável importância de Jerónimo Belo na divulgação e estudo do Jazz em Angola que terminamos estas breves linhas: para além de principal responsável pelo Festival Internacional de Jazz de Luanda, desde inícios da década de 70 que mantém regular participação em propagamas na Rádio e Televisão nacionais de Angola, autor de diversas publicações como o recente livro Blues e a Poética contra a Indiferença, justificando assim ter sido agraciado pelo Ministério da Cultura de Angola com um Diploma de Mérito pelas iniciativas em prol da divulgação do Jazz.
Paira no ar Afro-Blues de John Coltrane cujo título define o que o jazz é e o é orgulhosamente - de origem africana (ainda hoje século XXI) e blue ligado a blues conforme escreve José Duarte na colectânea editada pelo Público Let´s jazz...
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