Sou um homem de tendências ambulatórias; não viajo, porém, para ver monumentos imponentes, que, para falar verdade, me aborrecem um pouco, nem belas paisagens, de que logo me farto; viajo para ver gente. ...

Somerset Maugham

Podem aqui ser encontrados textos e sons diversos onde se comenta a globalização, encarada como historicamente gradual mas inevitável encontro entre culturas, com relevo para as artes musicais. Não existem culturas mais avançadas que outras, de excessos e fanatismos todas sofrem, e a Europa e os EUA têm de se preparar para isso...


Desde o séc. XVI que o folclore luso levado durante os descobrimentos mantém, estranhamente, uma actualidade que merece ser descoberta. Bom exemplo é o que se passa com o keroncong, estilo musical luso-oriental cada vez mais vivo na Indonésia. Mas como terá evoluído o Mandó que preenchia os serões nas casas senhoriais em Goa? Que música ouvirão os jovens do Bairro de Pescadores em Malaca…ouvi dizer que a Farapeira, com versos em Papiá Kristang está muito na moda (Farrapeira é uma das danças mais populares e antigas no Norte de Portugal). Li algures que Sunil Perera, líder da banda do Sri Lanka The Gypsies de ascendência Kaffir(cafres), tem esgotado salas com vibrantes temas Baila (hum…)! Haverá folclore luso-oriental em Timor para além das conhecidas canções de resistência? O que restará, nas Antilhas Holandesas, dos sons empapiamento guene"vindo da Guiné" que nasceu quando em 1634 o português Samuel Cohen aportou emCuração? E em Macau, a Tuna Macaense terá gravado novos temas em Papiá Macaista? No Brasil e Cabo-Verde a influência musical é por demais evidente, mas por outro lado tantos anos comerciámos na Tailândia e no Japão, será que também papearemos por aí…


(Por vezes também espreitam sons e palavras que aparecem não se sabe de onde...)


Indonésia: Banda sonora para uma presença oculta





"If African-Americans could claim ownership of jazz, 
Jakartans of Portuguese descent in Kampung Tugu, Koja, North Jakarta 
could do the same for keroncong"
Jakarta Post, Junho 2011

A descoberta

Numa viagem pela internet encontrei, um pouco por acaso, esta curiosa referência! Mas o que é isso de keroncong e que tem a ver com a longínqua presença portuguesa naquela região, de onde fomos "corridos" pelos holandeses em princípios do séc. XVII? E logo afirmado pelo Jakarta Post, jornal de referência da Indonésia, país com quem tivemos tantas tensões devido ao caso de Timor! 

Resolvi aprofundar e descobri  que a cena musical na Indonésia está "infestada com um vírus lusitano" que foi alastrando desde que  Diogo Lopes de Sequeira desembarcou em Malaca no ano de 1509. Em breve nasceria mais uma mestiçagem, um sincretismo cultural que permaneceria até hoje principalmente através da música, que poderá inclusive ser considerada "a mais antiga forma híbrida de musica popular", nas palavras do compositor e etnomusicólogo indonésio Ubiet em entrevista de 2007 ao Jakarta Post. O Kroncong original representa um caldo de sons portugueses e africanos trazidos nas naus e caravelas que se misturaram com vivências hindus e budistas que  banhavam os grandes centros culturais que já então eram Java, Samatra e Bali. Gradualmente, como veremos, outros sons bem distintos foram alterando aquela síntese musical, o que se por uma lado pode ajudar a perceber a sua persistência também merecerá reflexão quanto à força identitaria que permanece. 

A primeira grande ajuda para o esclarecimento do mistério foi a consulta da colectânea A Viagem dos Sons, conjunto de 12 cds sobre a diáspora portuguesa editada pela Tradisom, entre os quais se inclui a compilação Kroncong Moritsko, onde poderão encontrar-se diversos exemplos de cantigas (poesias acriouladas cantadas ou não), sempre com aprofundados textos explicativos. Foi a partir desta edição que parti para uma visão mais abrangente do tema, incluindo perspectivas atualizadas e mais diversificadas.

Após um breve enquadramento histórico tentarei demonstrar a vitalidade do Kroncong como folclore luso-oriental, tendo como base de trabalho a referida colectânea que actualizarei utilizando as virtualidade da Internet, listando por fim outras edições discográficas que complementam o levantamento. Naquela atualização seguirei a evolução do Kroncong original até à situação presente, onde a integração de outros géneros musicais continua ser característica identificadora e, como já referi, possível justificação para a sua renovação e consequente vitalidade, a par de outras causas conforme desenvolverei mais à frente: "Não é possível escapar à interconectividade da experiência musical, mesmo que os compositores tentem barricar-se contra o mundo exterior ou controlar o modo como o seu trabalho é recebido". (Alex Ross, "O Resto é Ruído", 2007, p. 537)

Lisboa no séc. XVI

Mas recuemos então perto de 500 anos e preparem-nos para embarcar na nau comandada por um qualquer capitão-mor que, entre muitas aventuras, nos vai ajudar a perceber como nasceu esta "estranha mas muito melodiosa e agradável música" como já em 1580 Sir Francis Drake ouvira e anotara na sua viagem de circum-navegação. 

Com o advento dos Descobrimentos Marítimos, que se iniciaram em 1415, Lisboa viu-se colocada na convergência das grandes rotas mundiais, transformando-se num importante entreposto comercial, científico e cultural da Europa. Em 1535 o humanista Clenardo escrevia: "Os escravos pululam por toda a parte. Todo o serviço é feito por negros e mouros cativos". Avalia-se em cerca de 10.000 o número de escravos em Lisboa, em 1551, num total de 100.000 habitantes.
Como seria o ambiente musical em Portugal nessa época?
Eis o relato das festas e cerimónias do casamento da Infanta D.Leonor, irmã de D.Afonso V com o Imperador Frederico III da Alemanha, em 1451, descrito pelo embaixador Lanckmann. 

"No 23º dia, veio muito povo defronte do palácio da senhora Imperatriz Esposa, com diversos instrumentos músicos - tubas, buzinas,etc., - e dividiu-se em quatro troços: o primeiro de cristãos, de ambos os sexos, dançando à sua maneira; o 2º, de mouros e mouras, também à sua maneira; o 3º de judeus de um e outro sexo, no seu costume; o 4º de mouros, etíopes e selvagens da Ilha Canária, onde os homens e mulheres andam nus, julgando serem e terem sido, assim, únicos no mundo"

Será fácil concluir que  até meados do Séc. XVI, a música e os instrumentos musicais dos vários povos e culturas presentes na Península Ibérica se influenciaram mutuamente, ora conservando cada grupo as particularidades e identidade que lhes eram próprias, ora recebendo  e adoptando as de outros, criando as raízes do que viria a ser a música folclórica lusitana. É curioso notar que a música e os instrumentos populares resultantes das profundas modificações que o país vivia são comentados por  Gil Vicente  no Triunfo do Inverno, lamentando o declínio da gaita de foles e do pandeiro nas terras ocidentais, onde "já não há hi gaita nem gaiteiro", permitido-nos concluir que as particularidades das várias regiões já se encontravam definidas no que de essencial as viria a caracterizar.

A música nas naus e caravelas 

Poderemos portanto  deduzir que a vida a bordo das naus e caravelas, do Capitão-mor aos marinheiros passando pelos mestres, grumetes, padre-capelão e outros cargos, reproduzia o colorido cultural que já então se vivia em Lisboa.  Naquele ambiente conturbado, repleto de privações, entre o jogo de cartas a dinheiro, procissões e rezas nos dias santos, por vezes era representada uma espécie de teatro de bordo que permitia quebrar "a monotonia daquelas viagens sem fim", não só a "representação em si mesma", mas também "os longos ensaios e  preparativos trabalhosos, em que entravam passageiros, soldados e embarcadiços" (Martins, S. J. Mário "Teatro Quinhentista nas Naus da India", 1973, pág. 61).

Dos diversos instrumentos musicais já então existentes em Portugal, há evidência que os portugueses tenham trazido para bordo órgãos, clavicórdios, vários tipos de alaúdes, nomeadamente o cavaquinho, violinos (mais concretamente a rebeca, sua antecessora), harpas, flautas, sinos europeus, tambores de caixilho, etc.,(rc 26 p. 28;)  com alguns deles a serem tangidos durante a viagem. A música e o canto constituíam, assim, também formas de diversão, havendo notícia de cerimónias religiosas onde se ouviam instrumentos musicais e se cantava. Note-se que o padre Belchior Nunes Barreto, em carta remetida de Goa com data de 1551, conta que na nau em que viajou se ouvia, algumas vezes, "música de cantigas profanas", o que fazia com que meninos orfãos que os missionários levavam para a Índia, se apressassem "a cantar outras mais honestas, e asi com o gosto do canto erão constrangidos a deyxar cantigas que prejudicavão a suas almas e ouvir as cousas de Deus embuçadas debayxo daquelle canto" (Rêgo, António da Silva (compilação e notas de -"Documentação para a História das Missões do Padroado Português do Oriente",vol.V, 1951, pág. 67). 

A esta amálgama de gentes juntam-se os chamados cafres (escravos não crentes), que embarcavam na África Oriental quando as embarcações aportavam para se abastecerem de alimentos frescos e outros mantimentos de espirito e corpo, e a quem Frei João dos Santos no seu livro Etiópia Oriental, de 1609, depois de descrever o xilofone, chamava "atroadores de ouvidos com umas cornetas grandes de uns animaes bravos…que soam como uma corneta bastarda…muitos tambores de que usam, ao modo de atabafes, uns grandes e outros pequenos, que temperam e ordenam de maneira, que uns lhe respondem em tiple e outros nas demais vozes…(Brito, Manuel Carlos "A Música na Expansão Portuguesa" in Revista de Cultura, 1996, n.º 26, p.6) e que geralmente se destinavam a servir nas casas de portugueses estabelecidos na Ásia, como em Macau, Goa e Malaca. 

Repare-se portanto existir um fluxo cultural das regiões orientais africanas para Oriente, paralelo ao que aconteceu para Ocidente, neste caso a partir da África Ocidental, embora com resultados distintos. Para  Shihan de Silva Jayasuriya, investigator no Institute of Commonwealth Studies em loners, enquanto entre os afro-asiáticos se passou uma mestiçagem ( "Afro-Asian communities are examples of mestissage or creolisation. Assimilation and adaptation of cultural practices, and the cross-fertilisation of cultures can be seen as positive, enriching and dynamic. While African retentions are apparent in their music and dance, other cultural traits are Asian or European. The diversity of the Indian Ocean with its flows of migrants may have enabled Africans to maintain their cultural traits. This has, in turn, further contributed to the diversity of the region"), misturando-se com os diversos povos que já lá habitavam, para os afro-americanos a vida terá sido bem mais difícil ("African movement is bound up with slavery, abolition and transition to tied labourthe cruelty inflicted on the victims, the disregard of human rights, public recognition of slavery as a crime, the natural desire of descendants of slaves to bring the truth to light, overrides any easy dividing line between past and present "Indian Oceanic Crossings: Music of the Afro-Asian Diaspora in African Diaspora 1" ,2008, p. 151).

Sublinhemos que nas antigas colónias portuguesas do Continente Asiático existem diversos exemplos da mistura a que Jayasuriya se refere, basta lembrar as diversas sínteses culturais que surgiram em Macau, Goa e Timor, onde a continuidade colonial se prolongou até meados do séc. XX. O curioso é que mesmo em territórios onde a permanência organizada foi muito menor, como no Ceilão (agora Sri Lanka), Malaca ou em Samatra e outras ilhas, a entidade cultural portuguesa se mantém, duma forma ou de outra, até hoje, com grande relevância para a música e a dança. A explicação passará não apenas pela tradicional diversidade e tolerância dos povos que lá habitavam e a que Jayasuriya se refere, mas também a opções políticas, económicas e sociais do poder português, nomeadamente o apoio à integração nas comunidades locais, de que é exemplo evidente a política dos casados (ver Luís Filipe Thomás "Malaca: the Town and the Society during the first century of Portuguese" in Revista de Cultura n.º 13/14, 1991). Recordemos que o colonialismo Dutch se impôs naquela região do Índico logo em princípios do século XVII, mantendo-se até às independências dos anos 40 do sé. XX.

Como escreveu em 1996 - palavras que penso continuarem atuais - Salwa Castelo Branco, embora continue a existir "uma notável falta de estudos sobre a influência portuguesa nas tradições musicais do mundo…há amplas provas da existência de vários géneros e níveis de sínteses multiculturais e musicais, incluindo uma importante componente portuguesa, mesmo quando a presença portuguesa foi curta e seguida pelo domínio de outras forças coloniais ocidentais"( "Algumas Observações sobre as Influências Portuguesas nas Tradições Musicais do Mundo" in Revista de Cultura, Macau, 1996, p.21. No mesmo sentido veja-se o texto de 2008 que acompanha o CD Diáspora-pt do Grupo Sete Lágrimas, da autoria do etnomusicólogo João Soeiro de Carvalho. Como referimos, o que se passou no Sri Lanka ( antigo Ceilão), na Indonésia e em Malaca  são disso curiosos exemplos que apetece aprofundar.

A chegada ao sudoeste asiático 

Mas voltemos à nossa viagem que a nau se aproxima de Malaca e sons budistas e hindus já se ouvem ao longe, não sem antes termos tido encontro com corsários chineses  que "…conhecendo que éramos portugueses, a quem não tinham boa vontade, nos mostraram de cima do chapitéu, falando com pouca cortesia, o traseiro de um cafre, e além disso, com muitos tangeres de trombetas e tambores e sinos, deram uma grande grita e apupada a modo de desprezo e escárnio" (Pinto, Fernão Mendes, "Peregrinação" cap. XXXX ).

No início do Séc. XVI já a os grandes centros culturais de Java, Samatra e Bali vibravam com intenso comércio dominado pelos árabes, que gradualmente haviam imposto a assimilação da religião islâmica às vivências budistas e hindus anteriores. Muitas vezes os tambores e gongos de sabor oriental misturavam a sua mística com alaúdes que acompanhavam sensuais danças árabes, misturando profano e religioso.

Após a tomada de Malaca em 1511 por Afonso Albuquerque e perante a concorrência dos espanhóis, ingleses e holandeses, a tentativa de obter o monopólio do comércio lucrativo da noz-moscada, do cravo-da-índia e de outras especiarias, levou os portugueses a estabelecer uma rede de fortalezas e feitorias que se  estendeu das ilhas de Ternate e Tidore no Norte a Timor Leste, passando por muitas outras ilhas da região. Este controle manteve-se apenas até por volta de 1602, data em que os holandeses assumiram economicamente e politicamente o controle da área.

Todavia os cerca 100 anos de permanência implantaram o tal "vírus lusitano" em cima referido, com manifestação muita clara através da música, cuja explicação encontra causas históricas, sociológicas e políticas com interpretação que varia consoante a fonte seja portuguesa, holandesa ou da indonésia.

Portugal manteve o seu Império não apenas com os lucros do comércio das especiarias mas também através do comércio de escravos principalmente africanos, embora também viessem da Índia, Ceilão, Malásia e Indonésia, que eram vendidos para casas portuguesas em África, Asia do Sul e Sueste e em Macau. Alguns falavam um crioulo de base portuguesa e aprenderam dos seus proprietários uma música de raiz ocidental com toques africanos, que misturaram com as suas artes tradicionais, criando uma síntese com que entretinham os seus senhores e iam escondendo as suas mágoas. Quando se convertiam ao cristianismo ganhavam a liberdade e eram designados como merdekas… que em malaio significa livre.

Não se sabe exactamente como eram compostos estes agrupamentos musicais, mas a estrutura ocidental estava bem patente não apenas através de alguns instrumentos tocados, mas também pelo envolvimento harmónico e utilização de escalas maiores e menores, muito possivelmente lembrando alguma da musica folclórica então ouvida em Portugal, tudo apimentado com sons africanos.

Segundo Pinto da França "eram tantos os portugueses de Goa e os mestiços de portugueses aprisionados durante a guerra e na condição de escravos que a Companhia das Indias Orientais resolveu dar-lhes a liberdade e dar-lhes terra nos arredores da Batavia" ("Os Portugueses na Indonésia" in Os Portugueses no Mundo - Conferência Internacional, 1985), atual Jacarta, tendo assim nascido em 1661 a aldeia de Tugu, bastião que até hoje se mantém fiel nas suas tradições lusófonas, incluindo no folclore musical.

A comunidade Tugu e o Keroncong

É aqui começa a história do Kroncong (termo em português), keroncong (indonésio) ou krontjong (holandês), sendo estas designações muitas vezes usadas indiscriminadamente.

Deixemos a nau que nos trouxe e embarquemos numa viagem que nos vai dar a conhecer a história desta comunidade Tugu, qual Lusitanea resistente a tantas e variadas vicissitudes, ainda hoje com orgulho da sua ascendência portuguesa. Por vezes viajaremos em ondas virtuais, socorrendo-nos de textos e imagens - também de fonte indonésia - devidamente identificados, mas principalmente seguiremos sons estranhos e encantatorios, que nos desvendarão ritmos e melodias fascinantes.

Fácil será descobrir que não é fácil chegar a Tugu, pois o caminho que liga Jacarta à aldeia é desordenado e barulhento, sem dúvida devido à proximidade do porto de Tanjung Priok, o principal da Indonésia.

Mas lá "O mar brilha num exagero de azul. O tempo dir-se-ia ter parado. Mosquitos zumbem em redor.", como diria Agualusa em "A rota das especiarias: Diário e uma Viagem a Flores, Bali, Java e Timor Lorosae" no ano de 2001. 

Estamos em 2010, é Natal e a Igreja de Tugu, a Norte de Jacarta, está enfeitada fazendo lembrar qualquer paróquia do interior português. "Dia 18 de Dezembro vamos ter uma grande festa onde a banda Krontjong Toegoe vai tocar música tradicional portuguesa", diz-nos a senhora Warti, enquanto Arthur Michiels, membro da "Tugu Family Community" nos explica que "não é verdade que tenham sido os holandeses a empurrar-nos para aqui, os nossos antepassados é que não estavam para aturar o colonialismo deles! (entrevista ao Jakarta Post em 2010).

Sie Kere canta, Canta dratoe purtieges, Numiste canta, Mallaiye landes 
(Se queres cantar, Canta em bom português, Não cantes em holandês malaio) 
Nevill 59/101, retirado de uma antiga cantiga do Ceilão

É assim que pensam as cerca de 22 famílias que constituem a comunidade de Tugu, com nomes que em muitos casos só remotamente soam a nossos conhecidos, como Kornelis, Michiels, Andries, Abrahams ou Quiko (reportagem Jakarta  Post em 2011) mas que "gostam de beber vinho, de comer carne de porco, dançam aos pares, falam com brio da sua fisionomia europeia e dos seus narizes longos, riem-se desbragadamente e dão-se a comentários brejeiros (o que contrasta com a cultura javanesa que preza a moderação e a cerimónia) e adoram conviver, cantar e dançar", conforme escreve Sara de Sousa, leitora do Instituto Camões em Jacarta, no blog Comunidade de Tugu acessível em tugu.zzl.org/).

São portanto descendentes de portugueses negros ou mestiços, protestantes que os holandeses a tal os obrigaram, que falavam um crioulo semelhante ao de Malaca, o Papiá Tugu (em 1978 morreu Jacob Quiko, último falante da língua, pois o Papiá foi gradualmente sendo substituído pelo holandês ou absorvido pela língua indonésia (Bahasa) - sara frança) e que se mantiveram fieis a um estilo de música que transmitiram oralmente entre gerações, um dos últimos vestígios da síntese cultural portuguesa original. 

O termo Kroncong será uma onomatopeia do toque do adufe ou da pandeireta que acompanhava os instrumentos de corda nas danças portuguesas e acabou por designar os cavaquinhos construídos em Tugu durante o séc. XVII e mais tarde o próprio agrupamento e tipo de musica. É curioso notar que a difusão do cavaquinho pelo mundo originou instrumentos tão variados como o ukulele havaiano, o machete brasileiro, a chamada guitarra de cuatro das caraíbas (todos cordofones de quatro cordas), para alem de se ter fixado em Cabo Verde e outras paragens.

Exemplos de temas Kroncong

A evolução deste estilo musical até à difusão e diversidade atuais passou por fases históricas que passarei agora a sintetizar, dando exemplos de composições que ilustram essa evolução, tentando encontrar os elementos que as ligam à lusofonia. Será uma abordagem geral, lembrando que através dos sons e textos da Viagem dos Sons poderá ser aprofundada esta matéria, nomeadamente encontrando outros géneros com influencia portuguesa na Indonésia como Kapri, Ronggeng ou Tanjidor. Sublinhe-se que todas estas versões estarão facilmente acessíveis através da Internet e mesmo adquiridas no Itunes, Amazon e outras discotecas virtuais.

Após a etapa inicial em que surgiu a interconexão cultural e que se localizou essencialmente na Batavia, embora também se formassem bolsas crioulas em outras ilhas da região, foi em Tugu que a partir de 1661 se centralizou a resistência cultural ao colonialismo holandês, chegando a ser proibida em algumas zonas urbanas. "As canções Kroncong eram sobre injustiça, arrogância e más condições de vida" afirmou Milton Michaelis ao Jakarta Post em 2011. Recorde-se que a citada brejeirice no seu comportamento, por vezes comparada ao marialvismo fadista - contrastante não apenas com a sobriedade javanesa mas também com a superioridade colonialista dos Dutch - ajudou a uma certa marginalidade que contribuiu para o seu isolamento e manutenção de identidade.

Deste período conhecem-se cantigas onde cavaquinho, viola, violino (biola em malaio), flauta transversal e percussão acompanham e solam melodias românticas, com estrutura e harmonia ocidental e muitos condimentos africanos. Por vezes ainda cantadas em crioulo, lembram a cadência do fado ou da morna e mesmo do chorinho brasileiro. Comparemos alguns temas que analisamos à frente com composições do brasileiro Pixinguinha, nomeadamente na fase de consolidação do Chorinho em princípios do séc. XX, e facilmente se entenderá a proximidade (ouça-se Juriti, Myrthes, Sedutor, Ingénuo, Ai seu pinguca, Desprezado, etc.).

Sons que apenas encontram semelhança, no continente asiático, a toadas que venham de locais por onde tenhamos passado, como Malaca, Goa, Ceilão ou Macau, lembrando os primeiros agrupamentos que seguiam claramente o modelo dos conjuntos musicais tradicionais do noroeste de Portugal. Muitas vezes não é usado cavaquinho (que tem quatro cordas) mas dois instrumentos idênticos, seus descendentes, um com três e outro com cinco cordas, que fazem o típico som Kroncong "nacionalizado" designado por Cuk e Cak

Nina Bóbó

Começarei por referir a cantiga de embalar muito antiga Nina Bóbó ou Nina Boboi ainda hoje muito ouvida por aquelas paragens, onde a palavra nina será uma adulteração de menina e bobo é o berço. Uma simples pesquisa na internet dar-nos-á uma imensidade de versões nos mais diversos estilos, propondo eu que para além da versão Kroncong pelos The Krontjong Ministrels (álbum) se ouça também o que poderemos chamar de versão original, cantada por Noel Félix, em Papiá Kristang de Malaca (Viagem dos Sons, compilação sobre Malaca  "kantiga di padri Sa Chang"). Como curiosidade ouça-se também a versão "country" do holandês nascido em Java Ernst Jansz, a que chamou De Ballade Van Nina Bobo, que com os Doe Maar encontrou muito sucesso na Holanda durante os anos 80. Lembremos que alguma da musica keroncong desde há muito que é cantada em língua holandesa.

Os Krontjong Minstrels eram banda de suporte de George de Fretes - um nome importante, durante os anos 40 e 50, na introdução da musica do Hawaii na Indonésia - mas nesta versão de Nina Boboi mostram o som tradicional Kroncong, com o violino a acompanhar voz melodiosa e ritmo de cavaquinho bem marcado.

Outras cantigas que se perdem nos tempos que merecem referência são Alpada Cu Itera, que Agualusa ouviu cantar na sua Rota das Especiarias por Magalita Quico, e a célebre Bastiana, muito conhecida em Macau mas que "o professor Boxer terá ouvido numa visita à Batávia em 1935 ser cantada em português por um desses poetas-vagabundos", como escreveu Pinto da França no texto anteriormente referido. Bastiana deverá ser das músicas medievais mais gravadas por músicos portugueses: Coral Dinamene, Isabel Tello Mexia, Sete Lágrimas, Coro da Camara de Lisboa, Tuna Macaense, entre outros.

Kroncong Moritsko

Não poderia deixar de mencionar o Kroncong Moritsko (Kroncong mouro) incluído na Viagem dos Sons, exemplo marcante da profunda melancolia (a saudade portuguesa) que, tal como o fado, impregna o som Kroncong. Este tema deve remontar ao inicio do séc. XVI, talvez na altura designado por Moresco (lago morsego), conforme P. França) e mostra bem a influencia muçulmana trazida para o Oriente pelos colonizadores comerciantes e missionários. 

Quem canta é Miss Netty com os Orkes Krontjong Asli Studio Djakarta numa gravação possivelmente de 1940, encantando através da rádio Voz da América com canções revolucionarias que anteviam a independência da Indonésia que aconteceria em 1945. A verdade é que a letra desta canção pouco tem a ver com protesto, ou quanto muito demonstra um protesto do coração, pois fala de alguém que busca a sua amada e pergunta sem resultado a uma flor e a uma estrela "vocês viram-na?"… mas a função revolucionária do Kroncong não passava apenas pelas letras, embora posteriormente diversos temas usassem letra nacionalista, mas porque partia duma comunidade que sempre se manteve autónoma relativamente aos colonizadores.

Quem desejar encontrar versão bem diferente,  onde o "nosso" Kroncong Moresco se transformou numa cançoneta folk, ouça Jim Pownall, famoso nos anos 60 com a banda de rock and roll The Hot Jumpers, no seu álbum "Memories".

Também muito significativa a versão interpretada pelo Orkes Cafrinho Tugu, dirigida por Samuel Quiko, onde uma doce voz feminina faz lembrar alguma morna cabo-verdiana. Este álbum é muito curioso pois foi o primeiro gravado por um grupo de Tugu, em 1995, tendo letras em bahasa, holandês e português crioulo. 

Além do Orkes Cafrinho Tugu, existem actualmente em Tugu os grupos, Kroncong Kornelis Tugu, Mardjikers de Toegoe, Krontjong Toegoe, Krontjong Toegoe jr., The Mardijkers jr. e o "Portukis" de Tugu que em 2011 atuou em Lisboa no Museu do Oriente.

Os Krontjong Toegoe jr. e The Mardijkers jr. merecem referência especial, pois demonstram que mesmo entre as crianças existe um esforço no sentido de manter a cultura tradicional, recuperando cantigas infantis tão curiosas como Jan Caga Leti (história de um jovem que não estava bem da barriga…), Gato-do-Mato, Bate-Bate Port e até Três Pombinhas a Voar, usando muitas vezes o Papiá local. Numa nota da Embaixada de Portugal na Indonésia quando de uma visita de embaixadores de países lusófonos em Jacarta à comunidade de Tugu, em 2007, mencionava-se que os temas interpretados pelo grupo local The Mardijkers jr., composto por crianças e adolescentes, "acompanhados por instrumentos de corda entre os quais o cavaquinho (aqui denominado "ikilela"), são geralmente indolentes e fazem lembrar música de Goa, mornas de cabo-Verde ou música dos Açores". Pesquise-se Bintang dari rumah (the Mardijkers) no youtube, ouça-se um pouco a partir do minuto dois e depois salte-se para o minuto quatro…também vale a pena experimentar pesquisar Mardijkers Jr Toegoe - RASA SAYANGE.

É de realçar que em 2008 a então leitora do Instituto Camões em Jacarta, Maria Emília Irmler, criou um grupo de danças tradicionais portuguesas denominado Romeiros de Tugu, constituído por membros dessa comunidade e que tem atuado por toda a Indonésia. Pode encontrar-se mais informação em tugu.zzl.org/videos.html.

No youtube, pesquisando por Kroncong Tugu, será possível encontrar muita informação sobre esta comunidade dos arredores de Jacarta. Se desejar encontrar puro Keroncong ao vivo, procure Keroncong Setiakawan in Yogya 1;  "Gambang Suling".wmv; Keroncong Soto Nusukan 1; Orkes keroncong Delta Irama Sidoarjo Kr. Mawar Sekuntum; Latihan Kroncong "Langgam Pamitan".

Kaparinyo
Na sua viagem pela Indonésia publicada em livro com o título "Mar das Especiarias", onde Joaquim Magalhães de  Castro,  jornalista residente em Macau "busca uma herança portuguesa com séculos de existência" e que amiúde se debruça sobre a presença do folclore luso-asiático, abrindo pistas que apetece aprofundar, refere que "nas tendas e tendinhas…era habitual encontrar uma canção sempre comum: kaparinyo"
Como adianta aquele autor, o curioso deste tema é que tudo indica provir de uma cantiga muito antiga e muito tocada no sudoeste asiático, nomeadamente no Sri Lanka e Malásia, chamada Lagu Cafrinyo. Na compilação da Viagem dos Sons dedicada ao Ceilão podemos encontrar o tema Cafrinha, que claramente nos faz lembrar o tal kaparinyo ouvido nas tendas e tendínhas. Esta história da negrinha goesa (cafrinha) que "passa na bordu maar" pode ser ouvida em Papiá Tugu cantada pelo chefe da comunidade Andre Michiels se procurar Cafrinho - krontjong toegoe no youtube.
Segundo Keneth Jackson, este será bom exemplo da existência de um folclore lusófono unificado na Ásia e mesmo no mundo (bem como as referidas Nina BóBó e Bastiana): " A minha hipótese é de que o texto folclórico define e reforça a identidade comunitária, repetindo as suas múltiplas fontes e práticas locais em muitos sítios da Ásia. A comparação de textos testemunha a unidade temática do verso crioulo indiano, com a preservação de temas do romanceiro e dos cancioneiros ibéricos, indicação de que outros exemplos deverão existir em outras áreas de contacto, do Brasil ao Japão, constituindo o rico corpo de folclore lusófono no mundo. De facto, a pesquisa recente em Malaca e na Indonésia resultou no registo de novos versos semelhantes aos indo-portugueses".(Revista de Cultura n.º 26, Macau 1996, p. 67)
Das diversas versões actualizadas de Kaparinyo proponho que se ouça a cristalina voz de Siti Nurhaliza que gravou o tema em 1997 no álbum Cindai.
Komedie Stamboel

Até 1880 a estrutura musical do Kroncong manteve-se basicamente inalterável, altura em que a utilização dessas musicas melodiosas pela companhia de teatro Komedie Stamboel, criando um estilo teatral muito em voga até meados dos anos 50, proporcionou imensa divulgação, chegando a realizarem-se anualmente concursos das melhores canções nas rádios locais. Também foi nesta altura que as cantigas receberam forma escrita, pois, como dissemos, até então a transmissão fora apenas de forma oral. A Komedie Stamboel foi criada por August Mahieu, partindo da fusão entre o teatro indonésio sindicara e a ópera francesa, acentuando-se assim a influência oriental, sem dúvida por ter saído das fronteiras de Tugu. Uma das consequências foi tornar-se o ritmo mais lento, o que veio a marcar definitivamente o som Kroncong, adaptando-o gradualmente ao gosto mais generalizado. Na Viagem dos Sons inclui-se  a canção STB II Janjiku.

Considerando ser o cavaquinho, com a referida evolução para cuk e cak e ukelele, instrumento básico do Kroncong, há um tema que merece realce especial e que pode ser encontrado no Vol. 20 de uma importante colectânea editada pela Smithsonian Folkways Recording com o titulo Music of Indonesia. Trata-se de Stambul Naturil, interpretado pelo guitarrista e cantor Usmad Achmad da região de Lampung, onde um bem nítido cavaquinho (Kroncong) acompanha reconhecivel mas estranha melodia entoada com voz e guitarra que enfeitiçam. Embora a colectânea editada pela Smithsonian Folkways Recording inclua no seu Vol. 2 um estudo mais aprofundado do Kroncong, penso ser esta Stambul Naturil um significativo exemplo da sua capacidade de adaptação, inclusive por se desviar da tradicional Komedie Stamboel.

É então com este espalhar de sons tipicamente Kroncong que começa a acontecer o seu maior adulteramento, designadamente com a introdução mais evidente de sons ligados ao Gamelan and Angklung, agrupamento composto por gongos que encantou Debussy na Exposição de Paris em 1889 (ouça-se uma versão mais recente no youtube pesquisando por Ibu Pertiwi - Waljinah ou a fusão sinfónica Kroncong untuk Ana by Gamelan UIA). 

Se quisermos comparar com som das Sundas sem influencia ocidental, ouçamos a cantora Enah Sukaenah Sobandi ou Elvy Sukaesih. É de facto interessante descobrir a musica tradicional da região actualizada sem influência de outros continentes…mas isso é outra história!  

Esta assimilação pelo povo malaio  do Kroncong foi de tal forma intensa que se transformou em música de protesto e resistência à invasão japonesa - na linha do que se passara durante o colonialismo holandês - passando após a independência a ser considerada musica nacionalista, representando o nascimento da Indonésia como nação independente em 1945…o que justifica que existam correntes recentes que tentam "nacionalizar" o Kroncong, encontrando paralelo com o fado português, o flamengo ou o tango argentine. Em um "site" onde se sublinha ser cem por cento indonésio, escreve-se que  Andjar Any, president do "Kroncong Music Artists Association " (HAMKRI), "categorically says that Kroncong music is purely Indonesian. The 61 year-old artist, a journalist strongly supports his theory. In his profession he has traveled around the world and he did not found any music similar to Kroncong even in Portugal or its ex colony. It is a probability, that our people saw the European played their music with western music instruments hundreds years ago in the old days"...

Por curiosa coincidência, faz agora um ano que o Fado foi aceite como património mundial pela Unesco em Bali...

Para esta paixão muito contribuíram as composições do compositor e cantor de Java Gesang Martohartonoem, autor de imensas canções ainda agora muito populares criadas nas décadas 50 a 80 do século passado, como é o caso do exemplo seguinte.

Bengawan Solo

Se pesquisarmos no Itunes o tema Bengawan Solo descobriremos cerca de 90 interpretações diferentes, nas mais diversas versões, semelhante ao que acontece, p. ex., com a Garota de Ipanema de Vinicious de Morais! 

Este hino tem variantes rock and roll (The Crescendos), tradicional gamelan de Java (Dedikasi Group), bossa nova (Lisa Ono), bolero (Los Panchos), cha cha cha e tango (Steve Handoya Ensemble), estilo havaiano (Yao Zhong), jazz Sierra Soetedjo), experimental (Sambasunda) além de variadíssimas versões instrumentais incluindo orquestra sinfónica (Orquestra Sinfónica de Changai) e guitarra clássica (Claude Ciari), e é cantado em treze línguas. Merecerá especial realce a versão de Mike Cooper, que no seu album de 2010 Beach Crossing - Pacific Footprints onde ironiza sobre os diversos colonialismos que dominaram o Pacífico, inclui uma versão onde se "forjam conexões entre folk e musica experimental", como escreve a revista Wired.

Criado pelo  maestro Gesang em 1940, durante a ocupação japonesa, o tema  canta a beleza das montanhas que rodeiam o rio Solo ganhou muita da sua popularidade ao ser levado para o Japão pelos soldados no fim da guerra, tornado-se um símbolo da musica tradicional indonésia naquele país, sendo muitas vezes utilizado como "prova" da origem indonésia do Kroncong. Quem apanhar o comboio na estação de Tugu em Yogyakata, na Ilha de Java, depois duma visita ao Taman Sari, Palácio da Água  que faz lembrar palácios e quintas barrocas existentes em Portugal e que é considerado Património Histórico de Origem Portuguesa, poderá embarcar  num passeio pelo maior rio da Indonésia em Surakartae e deixar-se embalar ao som da bonita canção.  

A cantora Waldjinah, por vezes apelidada de Rainha do Kroncong e também dirigente do "Kroncong Music Artists Association refere numa entrevista ao Jakarta Post em 2011 que a longevidade do Kroncong passa por ser genuinamente local e portanto totalmente compreendido pelo povo, apresentando Bengawan Solo como exemplo dessa autenticidade nacional. Todavia, se ouvirmos a versão original, facilmente nos apercebemos da estrutura que define, para a grande maioria dos autores, o folclore luso-oriental primitivo (melodia, afinação, escalas, etc), lembrando que uma outra sua característica - o ser cantado em crioulo - foi gradualmente desaparecendo.

Vejam-se mais alguns exemplos onde com facilidade se reconhecem sons lusitanos, a pesquisar no youtube: Dewi Murni onde Suari Soektjo canta como verdadeira fadista a meio do tema; em The "Duriyapraneet" Ensemble & The "Fadzil Ahmad" Ensemble no álbum "Authentic South-East Asia Vol. 1" ouça-se o tema  Kroncong part 1 e descubra-se que melodia nos faz lembrar algo muito conhecido; a canção de Natal com gongos e cuk e cak  compursari cantada por Mus Mulyadi "hai kota kecil betlehem"; versão do fado Rosa Branca, cantado em português, em Kroncong Tugu Rosa Branca

Nesta altura já se chamava Kroncong a todo o género musical que tivesse elementos ocidentais, chegando a designar Keronrock ao rock dos anos 50 ouvido na Holanda, trazido por retornados fugidos após independência indonésia, com nomes de bandas como The Krontjong Devils.  Todavia, apenas em Tugu se mantinham grupos que tentavam manter o som mais tradicional (note-se que Joaquim Magalhães de Castro refere outros locais dispersos pelas Molucas que se reivindicam dos sons lusitanos - veja-se Amboino onde existe um museu instrumentos portugueses com tambores de caixilho, flautas e cavaquinhos; katreji e outras danças em Hatalai; Kupang onde se pode "ouvir musica portuguesa a sério"; Maumere e grupo bamboler) 

Entretanto sons dos anos 60 e 70 começaram a invadir também aquelas regiões do globo, e a música keroncong passou a ser considerada "de velhos e ultrapassada". Esta situação manteve-se até meados dos anos 80 , altura em que o surgir da chamada World Music fez com que não apenas o que era considerado genuinamente indonésio - como os interessantíssimos gamelan e gondang, e outras artes musicais tradicionais, mas também realidades com evolução histórica distinta, como o Kroncong e tanjidor. Digamos que dentro das doutrinas entnomusicologicas deixou de imperar a corrente do "essencialismo nativo", onde folclore musical que era tangido "with enthusiasm and unmistakable musicality but without the slighest real musical culture" (Ernst Hein "Kroncong and Tanjidor - two cases of Urban Folk Music in Jakarta") era considerado menor.

É assim que chegamos à situação atual, onde bandas de abrangência nacional e mesmo internacional - cada vez mais se ouve Kroncong na China, no Japão e outros países asiáticos - fazem versões e mesmo novas composições que demonstram a sua vitalidade, num contexto revivalista que, como referimos, em alguns meios mais oficiais insiste em considerar o Kroncong como folclore tipicamente indonésio. É tocado em cerimónias oficiais que festejam a independência do país, encontram-se justificações históricas para minimizar o tal vírus lusitano, ao mesmo tempo que o concurso local dos Ídolos 2012 é ganho por uma versão nesse estilo de Hey Jude dos Beatles… não estamos a exagerar se dissermos que o debate está na ordem do dia!

Kroncong Protol

Trata-se de um dos exemplos mais significativos da atual vitalidade do Kroncong, onde se mistura tradicional e contemporâneo. Após um inicio onde o cavaquinho, a flauta e o ritmo acentuam a marca original, gradualmente entra a voz em estilo hip-hop que se envolve com a harmonia da flauta, até ao momento em que o ritmo e a harmonia das vozes desaguam em ritmo indefinido. Também muito curiosa a utilização de falsete, som tradicional das canções javaneses (sinden), onde alguns autores encontram ligações ao fado Folgadinho (Victor Ganap "Influence of Music in Portugal: Kroncong", 2009). Para Bondan Prakoso e a sua banda Fade to Black, autor em 2007 do Kroncong Protol, a intenção passa por preservar uma música tradicional, contando um pouco da sua história nas palavras cantadas, através duma musica mainstream.

Podemos encontrar exemplo semelhante no youtube em Vidi Klantink Bondan "Bengawan Solo", versão Hip Hop da cantiga de Gesang  já acima referida, também pelos Fade to Black & Bondan Prakoso. Se quisermos uma mistura ainda mais tradicional, vale a pena pesquisar no youtube Kroncong rap koruptor tengik nv e hip hop - plis dong sayang. Ou espreitem para o interessante "Unofficial audio and music video for the latest 'keroncong' version of Horrible Adorable (Old Automatic Garbage)"!

Gambang semarang 

Um dos artistas mais considerados da Indonésia, etnomusicologista de formação e autor de extensa obra, Ubiet gravou em 2012 o álbum Kroncong Tenggara, onde procura caminhos mais ligados à musica erudita e ao jazz. Ainda não consegui aceder ao álbum completo, mas o exemplo que pode ser encontrado digitando ubiet Kroncong tenggara - gambang semarang no youtube abre muito boas expetativas. Repare-se no que é escrito numa critica ao album : "You will enjoy vocals reminiscent of Portuguese Fado, ukulele rhythms of the Pacific and a playful blend of cello, violin, accordion and traditional percussion. Discover Kroncong, one of the great popular music forms of the 20th Century, world music’s best kept"

Kemayoran

Nesta linha do Jazz e com tons clássicos podemos ouvir  Kemayoran, canção muito conhecida também de Gesang, com versões em Jazz (álbum 1st. Edition pelo grupo Trisum)  e versão sinfónica em youtube Simfoni Untuk Bangsa: Kroncong Kemayoran. Merece a pena conhecer Zee Avi e o seu cavaquinho (ukulele), menina muito em voga entre bandas como The Shins, White Stripes ou Raconteurs…

Muito mais exemplos poderia apresentar, trata-se de um mundo (ainda) cheio de surpresas a explorar para melhor se perceber porque já os navegadores sentiam que "a estranheza da imagem coabita com a imagem da estranheza"!

Conclusão

Para além de Joaquim Magalhães de Castro, também autores que recentemente visitaram a Indonésia como José Agualusa ou Pedro Rosa Mendes se debruçaram sobre a razão "porque persiste no imaginário da antiga Insulínda a memória dos portugueses". Para Guilherme de Oliveira Martins, presidente do Centro Nacional de Cultura, a resposta estará nas palavras já antigas do antigo Embaixador em Jacarta António Pinto França: "é possível que a intrigante sobrevivência dos nossos vestígios, a curiosidade e a simpatia que ainda hoje manifestam por Portugal, se devam a um fenómeno de assimilação da imagem dos portugueses aos mitos das populações locais".  

A religião, a língua, alguns hábitos e comportamentos e sem dúvida a música são traços componentes dessa diferença relativamente à cultura Oriental "genuína", contribuindo para a criação do mencionado "mito português". Penso, todavia, existirem também fortes razões políticas objectivas que fortaleceram essa simbologia, designadamente o facto da persistência da comunidade Tugu em manter a sua identidade ter contribuído para o caminho indonésio para a sua liberdade relativamente ao colonialismo holandês e ocupação japonesa, com o consequente alcançar da independência como pais soberano.

Pode portanto concluir-se que, na linha de outras sínteses musicais lusas (Janita Salomé diria, orgulhoso, rafeirices ou impurezas)  espalhadas pelo mundo, o folclore luso-oriental continua vivo, sendo o Kroncong disso bom exemplo. 


Sem comentários:

Enviar um comentário