Sou um homem de tendências ambulatórias; não viajo, porém, para ver monumentos imponentes, que, para falar verdade, me aborrecem um pouco, nem belas paisagens, de que logo me farto; viajo para ver gente. ...

Somerset Maugham

Podem aqui ser encontrados textos e sons diversos onde se comenta a globalização, encarada como historicamente gradual mas inevitável encontro entre culturas, com relevo para as artes musicais. Não existem culturas mais avançadas que outras, de excessos e fanatismos todas sofrem, e a Europa e os EUA têm de se preparar para isso...


Desde o séc. XVI que o folclore luso levado durante os descobrimentos mantém, estranhamente, uma actualidade que merece ser descoberta. Bom exemplo é o que se passa com o keroncong, estilo musical luso-oriental cada vez mais vivo na Indonésia. Mas como terá evoluído o Mandó que preenchia os serões nas casas senhoriais em Goa? Que música ouvirão os jovens do Bairro de Pescadores em Malaca…ouvi dizer que a Farapeira, com versos em Papiá Kristang está muito na moda (Farrapeira é uma das danças mais populares e antigas no Norte de Portugal). Li algures que Sunil Perera, líder da banda do Sri Lanka The Gypsies de ascendência Kaffir(cafres), tem esgotado salas com vibrantes temas Baila (hum…)! Haverá folclore luso-oriental em Timor para além das conhecidas canções de resistência? O que restará, nas Antilhas Holandesas, dos sons empapiamento guene"vindo da Guiné" que nasceu quando em 1634 o português Samuel Cohen aportou emCuração? E em Macau, a Tuna Macaense terá gravado novos temas em Papiá Macaista? No Brasil e Cabo-Verde a influência musical é por demais evidente, mas por outro lado tantos anos comerciámos na Tailândia e no Japão, será que também papearemos por aí…


(Por vezes também espreitam sons e palavras que aparecem não se sabe de onde...)


sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Este é o Lugar / This Must Be the Place




Não sabemos exatamente que lugar é esse, mas poderemos descobri-lo em mais de uma centena de fotografias, reunidas em 13 séries, na Galeria de Exposições Temporárias da Sede da Fundação Gulbenkian

A não perder, até 1 de Junho,  a primeira retrospetiva do fotógrafo sul-africano Pieter Hugo (Joanesburgo, 1976), que desde 2003 retrata a vida quotidiana na África do Sul. Começou por ser fotojornalista, mas porque tinha reflexos lentos não conseguia captar a notícia numa imagem de forma a que tudo ficasse contextualizado, e por isso decidiu "passar a trabalhar em revistas o que me permitiu melhorar o meu trabalho fotográfico e fazer disso o meu percurso".

São retratos que perturbam, mais que meras fotografias, onde o visitante se sente penetrado pelo olhar fixo das imagens, gentes e bichos nos mais diversos lugares: "Para os Europeus África continua a ser um continente estranho onde o mistério se mistura com o lixo, a pobreza, a superstição", pelo que tenta mostrar  a verdade de um continente que ainda não se libertou das nefastas consequências de prolongado colonialismo.

Foi com a série The Hyena & Other Men que o trabalho do sul-africano Pieter Hugo se tornou conhecido internacionalmente. As imagens surpreendentes e poderosas de um grupo de artistas itinerantes na Nigéria que posam junto dos seus animais – hienas, macacos, cobras – correram mundo.

Pieter Hugo sente-se "um branco sul-africano que influenciado pelas características do país e das suas circunstâncias", tentando perceber "o que é o pós-apartheid, o pós-Mandela e o terceiromundismo". Herdeiro das grandes tradições do Sul de África – a paisagem e o retrato –,  tem no entanto uma forma especial de se desviar do cânone. Grande parte das paisagens que retrata é catastrófica: veja-se Permanent Error, a série sobre o vasto descampado no Gana onde as empresas tecnológicas europeias despejam o seu lixo.

Com uma produção abundante, em 2012 Pieter Hugo viu o Museu de Fotografia de Haia dedicar-lhe uma exposição antológica, This Must Be the Place, agora em exibição na Gulbenkian.



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