Sou um homem de tendências ambulatórias; não viajo, porém, para ver monumentos imponentes, que, para falar verdade, me aborrecem um pouco, nem belas paisagens, de que logo me farto; viajo para ver gente. ...

Somerset Maugham

Podem aqui ser encontrados textos e sons diversos onde se comenta a globalização, encarada como historicamente gradual mas inevitável encontro entre culturas, com relevo para as artes musicais. Não existem culturas mais avançadas que outras, de excessos e fanatismos todas sofrem, e a Europa e os EUA têm de se preparar para isso...


Desde o séc. XVI que o folclore luso levado durante os descobrimentos mantém, estranhamente, uma actualidade que merece ser descoberta. Bom exemplo é o que se passa com o keroncong, estilo musical luso-oriental cada vez mais vivo na Indonésia. Mas como terá evoluído o Mandó que preenchia os serões nas casas senhoriais em Goa? Que música ouvirão os jovens do Bairro de Pescadores em Malaca…ouvi dizer que a Farapeira, com versos em Papiá Kristang está muito na moda (Farrapeira é uma das danças mais populares e antigas no Norte de Portugal). Li algures que Sunil Perera, líder da banda do Sri Lanka The Gypsies de ascendência Kaffir(cafres), tem esgotado salas com vibrantes temas Baila (hum…)! Haverá folclore luso-oriental em Timor para além das conhecidas canções de resistência? O que restará, nas Antilhas Holandesas, dos sons empapiamento guene"vindo da Guiné" que nasceu quando em 1634 o português Samuel Cohen aportou emCuração? E em Macau, a Tuna Macaense terá gravado novos temas em Papiá Macaista? No Brasil e Cabo-Verde a influência musical é por demais evidente, mas por outro lado tantos anos comerciámos na Tailândia e no Japão, será que também papearemos por aí…


(Por vezes também espreitam sons e palavras que aparecem não se sabe de onde...)


quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Disco mais recente de João Afonso




Editado em Janeiro de 2014, Sangue Bom é o mais recente trabalho do cantor João Afonso, onde África em português viaja até Goa navegando nas palavras de Mia Couto e Jozé Agualusa.

Em entrevista à Rádio Antena1, João Afonso afirma que neste disco “há poemas introspectivos, filosóficos, como Sementes ou A dor e o tempo."

É verdade, trata-se de um disco denso e para tal muito contribuem os arranjos de Vítor Milhanas (ouça-se a constelação de sons do tema Astros), director musical que costuma trabalhar com Fausto Bordalo Dias. Denso e profundo ou não fossem todas as letras de Mia Couto e José Agualusa, que com a voz de João Afonso juntaram Portugal, Angola e Moçambique. Denso e profundo mas não maçador, são sons que nos fazem viajar, com "imagens muito fortes da diáspora portuguesa: Goa, Porto Amboim, a estrada quente… Além dos temas universais, o amor, os desamores, a Canção da Despedida onde a Aline Frazão, jovem cantora angolana, interpreta a música com uma sensualidade especial", acrescenta João Afonso.

A produção de Vitor Milhanas cria uma sonoridade múltipla que tenta acompanhar a musicalidade que as palavras dos poetas conteriam desde o início, agora transmitindo o tropicalismo das ilhas de São Tomé em Verde para Crer, depois o misticismo com cheiro a incenso em Canção de Goa (leia-se o romance Um Estranho em Goa de Agualusa), passando pelo minimalista hipnótico de Lagarto, a nostalgia do retorno de Na Grande Casa Branca...

Na canção que dá título ao álbum, hino contra o preconceito onde Mia Couto grita que "cada homem é uma raça", João Afonso volta ao seu estilo mais tradicional, como se actualizasse Venham Mais Cinco do tio Zeca, lembrando que em 2009 editou o álbum Redondo Vocábulo, onde revisitou o repertório de José Afonso.

Na citada entrevista à rádio João Afonso interpreta alguns temas do álbum apenas acompanhado com a sua guitarra, e a força das canções faz pensar que por vezes haverá instrumentos a mais e tecnologia talvez desnecessária nos arranjos de Vitor Milhanas, mas vale mesmo a pena descobrir Sangue Bom, quinto álbum de originais de João Afonso depois de Missangas (1997), Barco Voador (1999), Zanzibar (2002) onde já escrevera uma canção inspirada no romance Mar Me Quer de Mia Couto e Outra Vida

Sem comentários:

Enviar um comentário