Sou um homem de tendências ambulatórias; não viajo, porém, para ver monumentos imponentes, que, para falar verdade, me aborrecem um pouco, nem belas paisagens, de que logo me farto; viajo para ver gente. ...

Somerset Maugham

Podem aqui ser encontrados textos e sons diversos onde se comenta a globalização, encarada como historicamente gradual mas inevitável encontro entre culturas, com relevo para as artes musicais. Não existem culturas mais avançadas que outras, de excessos e fanatismos todas sofrem, e a Europa e os EUA têm de se preparar para isso...


Desde o séc. XVI que o folclore luso levado durante os descobrimentos mantém, estranhamente, uma actualidade que merece ser descoberta. Bom exemplo é o que se passa com o keroncong, estilo musical luso-oriental cada vez mais vivo na Indonésia. Mas como terá evoluído o Mandó que preenchia os serões nas casas senhoriais em Goa? Que música ouvirão os jovens do Bairro de Pescadores em Malaca…ouvi dizer que a Farapeira, com versos em Papiá Kristang está muito na moda (Farrapeira é uma das danças mais populares e antigas no Norte de Portugal). Li algures que Sunil Perera, líder da banda do Sri Lanka The Gypsies de ascendência Kaffir(cafres), tem esgotado salas com vibrantes temas Baila (hum…)! Haverá folclore luso-oriental em Timor para além das conhecidas canções de resistência? O que restará, nas Antilhas Holandesas, dos sons empapiamento guene"vindo da Guiné" que nasceu quando em 1634 o português Samuel Cohen aportou emCuração? E em Macau, a Tuna Macaense terá gravado novos temas em Papiá Macaista? No Brasil e Cabo-Verde a influência musical é por demais evidente, mas por outro lado tantos anos comerciámos na Tailândia e no Japão, será que também papearemos por aí…


(Por vezes também espreitam sons e palavras que aparecem não se sabe de onde...)


terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

 Relembrando os Windies  


Mas quem foram os Windies, conjunto musical que 50 anos depois de acabarem, ainda tem seguidores que justificam a edição de um poster que conta a história da banda?  Os desenhos dos músicos são da autoria de Jorge Rede, um artista plástico que viveu intensamente a época áurea dos Windies. A  ilustração pertence ao jovem João Vaz, que conseguiu captar a cena psicadélica da altura.


Nos anos 60/ 70, apesar da guerra, Luanda fervilhava de música, não apenas na chamada cidade do asfalto ou cidade colonial - centro administrativo, dos negócios e urbanizada - mas também nos bairros limítrofes, onde grandes farras eram animadas pelos Kiesos, Jovens do Prenda ou os mais conhecidos N´Gola Ritmos de Liceu Vieira Dias.   


Mas foi na zona urbana que a pacatez tradicional dos anos 50 mais sentiu os novos e jovens sons, principalmente a partir de meados da década de 60, com o surgir de diversos conjuntos que tocavam os chamados Ritmos Modernos. Misturavam-se sons não africanos com a cor e o cheiro bom do óleo de palma, que é capaz de reconciliar amizades…  


O rock e o pop dominavam as festas no cinema Miramar, onde Coca-Colas e Cucas acompanhavam o fascinante pôr do sol sobre a Ilha de Luanda. Todos os fins de semana o ambiente aquecia em colectividades de bairro como a Casa Branca ou o Ferrovia, onde se juntava a pequena e média burguesias, ou em clubes mais seleccionados como a Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra em Angola, o Clube dos Amadores de Pesca ou o Clube de Caçadores, para além de espectáculos pontuais nas festas de finalistas do Liceu Salvador Correia, não esquecendo o sempre concorrido Carnaval de Luanda no Maxinde ou no Restauração. Estivesse o pesado Cacimbo ou a quente e húmida Estação das Chuvas!  As conversas fluíam, entre os ma✊is jovens num calão bem saboroso (coxe, bongosso, avilo, bazar) e umas Cucas, enquanto os cotas brindavam com catembe, cachitembe ou whisky, consoante o lugar do slow ou funk, rebita, merengue ou samba…


Embora Os Rocks de Eduardo Nascimento tenham sido o primeiro grupo de Angola a ser conhecido na “Metrópole” (o Duo Ouro Negro era “de outro campeonato”), vencendo em 1965 o 1.º Concurso Yé-Yé no Teatro Monumental em Lisboa, em disputa com os Rebeldes de Fausto Bordalo Dias, proliferavam bandas como os Brucutus, Jovens, Incógnitos, Diabólicos e tantos outros. Mas talvez sejam os Windies que mais tradição deixaram, existindo mesmo uma página de facebook, muito participada por quem se recorda desses tempos.   


Claro que para isso muito contribuiu o músico agora denominado Beto Kalulu, que em tempos idos, depois de ter passado por outros conjuntos, como os Brotolândia (também se ouvia muita música brasileira) e os Hippies, foi o grande impulsionador dos Windies. Surgidos em Maio de 1968, com Adoindo Teixeira na viola solo, Américo Augusto na viola baixo, Joaquim Correia vocalista e Jaime Mendo na viola ritmo, para além do Beto Silva, por lá passaram vários músicos que ainda agora estão no ativo, embora dos cinco fundadores apenas dois mantenham viva a sua arte. Deve sublinhar-se que o músico José Pino, que considerávamos nosso “diretor musical”, foi essencial para criar bases musicais para o lançamento da primeira formação dos Windies (os chamados fundadores), uma vez que, com muita paciência, lá ia conseguindo transmitir os seus conhecimentos musicais aos inexperientes “maçaricos”. Ele também já andava “noutro campeonato”…


O som dos Windies foi evoluindo de um pop mais beatliano para uma cena mais pesada, com novos membros devidamente integrados na onda dos anos 70. Embora o grupo tenha acabado em finais de 1974, depois de, como afirma o músico Pedro Romeiro, “revolucionarmos a música em Angola, fazendo vibrar plateias desde Malange até ao deserto do Namibe”, ainda agora, também em Angola, persiste quem não permita que essas memórias se percam.  



No princípio deste ano Beto perdeu Ana, sua companheira de sempre. Com o apoio do músico Enzo D`Áversa, amigo de há muitos anos,  prepara um novo disco, que vai dedicar à Ana e ao seu filho Tomé, que faz parte da sua banda atual, a que se juntam Marcos Vita e Quim Brandão. 


Beto Kalulu está radicado no Algarve, no Carvoeiro, deslocando-se com frequência a Angola para espetáculos e abraçar velhas amizades. Continua com o seu som característico e o seu amor pela paz, a que junta farta cabeleira Afro, complementos ideais para um som que facilmente nos transporta para as selvas e savanas africanas, assim contribuindo para que esteja incluído em diversos guias turísticos de um algarve nada marafado…  


Toda a história está contada no livro “Beto dos Windies - Beto Kalulu: da cena musical em Luanda à consagração no Algarve”. O poster poderá poderá ser gratuitamente baixado, e imprimido, na pagina https://www.facebook.com/windiesluanda/

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